quinta-feira, 28 de março de 2013

Estrelas

Ontem à noite estava quente demais pra dormir; por mais que eu tentasse, fiquei rolando na cama; de um lado pro outro. Quando cansei, quando finalmente os lençóis se desprenderam e começaram a me incomodar, fui pro terraço.

Tá, não é um terraço. É a laje. E tudo bem, não é arrumada, nem nada, é apenas uma laje comum. Levei um colchonete velho, daqueles que a gente leva em viagem e fiquei sentado, olhando a rua. Cachorros passeavam, fugidos da casa de seus donos. Gatos desfilavam orgulhosos sobre os muros; rabos em pé, desdenhando dos cachorros; e então vi que tudo isto estava apenas na minha cabeça.

Uma infinidade de coisas passava pela minha cabeça, e eu sempre com esse hábito de inventar histórias pros animais, pros outros, porque assim, não pensava imediatamente nas coisas que tinham que ser resolvidas.

Amores perdidos, carreiras fracassadas, problemas familiares, discussões com amigos, lágrimas derramadas, corações despedaçados, entrecortados por manhãs preguiçosas e sorrisos sinceros com café quente e biscoitos amanteigados num prato de louça. Já não fazia mais sentido ouvir meus pensamentos.

E lá longe, as estrelas piscando - porque pra mim, elas piscam, não podem brilhar todo o tempo sem piscar- e uma lua cheia pálida, querendo desesperadamente ir à praia se estender na areia e ficar com marquinha de bikíni. Uma lua que não brilhava, mas refletia a luz que recebia, como algumas pessoas.

Como eu.

Às vezes não basta ser um corpo celeste; não basta ser lua e refletir a luz dos outros quando queremos ser estrelas e brilhar por nós mesmos; e na maior parte do tempo, ficamos por lá, jogados, piscando pras coisas que acontecem na nossa vida, nos movendo devagar demais pra fazer alguma diferença.

O colchonete já não me dá conforto; levanto e ergo os braços na tentativa fútil de alcançar as estrelas brilhando. Os pés já não tocam mais o chão; e de repente, não é mais sonho, não é mais devaneio. Eu me sinto queimar por dentro, eu me sinto brilhar e me erguer, e decido ir o mais alto e o mais longe. Não quero ser comum, não quero refletir. Quero ser. Quero brilhar.

Mais que qualquer coisa, quero ter meu espaço.

E me lembrei de que um dia me disseram que muitas das estrelas que vemos já estão mortas. O que vemos é apenas sua luz que continuou viajando até chegar aqui.

Não faz mais diferença. As estrelas que queimam mais rápido também são aquelas que brilham mais forte. Vou subir, vou ascender e acender, viro supernova dentro de mim mesmo, cortando a atmosfera verticalmente até o céu, e além dele.

E a Terra é azul.

Mas isso não vai me impedir de continuar. Cometas, meteoros, planetas ao longe, outras estrelas, todas as coisas vão passando diante de mim, e eu num esforço para não piscar, para não perder nada.

Não me basta, nada me basta, quero ir além dos meus próprios limites, quero saber até onde posso chegar.

Sou supernova, incandescende, flamejante. Sou mais, vou além. Melhor que tudo isso: sou.


Acordo no terraço com os amanhecer. Os problemas eu sei que não desapareceram, mas pelo menos eu sei que atitude posso tomar na vida daqui por diante.

sábado, 2 de março de 2013

Lágrimas

-Não gosto quanto você chora assim, sem motivo.
-Eu tenho motivos pra chorar. Ele terminou comigo. Assim, do dia pra noite, sem mais nem menos.
-Então, você deveria estar feliz, tem sua liberdade de volta.
-Eu não quero liberdade, quero companhia.

Alguns segundos de silêncio seguiram-se naquela mesa de lanchonete. Já estava quase na hora de fechar, e os dois sabiam que teriam que ir embora. A questão é: para onde? Nenhum dos dois tinha pra onde ir naquela noite estrelada.

-Você tem companhia. Tem sua família, seus amigos, seus colegas de trabalho.
-Você me entendeu. Eu estou cansado de relacionamentos frustrados, de depositar minhas esperanças em alguém que só vai me sacanear.
-E ainda assim, você continua tentando.
-Todos continuamos tentando, não é assim que é pra ser?
-Eu não acredito nisso. Eu acredito que nascemos pra ficar bem, seja com os outros, ou conosco. Nascemos pra conquistas, pra realizações, não nascemos pra sonhos que se tornam pesadelos.

Um atendente veio perguntar se eles iam querer mais alguma coisa da cozinha. Ambos disseram que não, deram boa noite e encaminharam-se à porta.

-E agora, você tem que ir?
-Não vou deixar você chorando pela rua numa noite de sábado, sozinho. Eu seria uma merda de amigo se fizesse isso.
-Nah, pode ir, já passou o pior, vou ter que lidar com isso. Ainda tenho muito o que chorar.
-Então, não tem que chorar sozinho.

Eles se abraçaram e continuaram em silêncio. Um morador de rua os chamou de viados, e foi ignorado. Caminharam em direção à praia, com a areia já suja, e o vento gelado. Sentaram-se num banco no calçadão e ficaram olhando as pequenas ondas da maré baixa trazendo sujeira pra areia branca.

-Às vezes eu acho que o problema é comigo, sabe? Nunca dá certo, com ninguém. Já tentei diversas pessoas diferentes, já me adaptei a muita coisa, e sempre é assim, tomo um pé na bunda por motivos escrotos, com razões absurdas.
-Às vezes o problema é você mesmo. Fica tentando se adaptar enquanto os outros permanecem os mesmos. Uma relação nunca vai ser levada a frente se é unilateral. Não adianta você investir 200% de si mesmo quando a pessoa é incapaz de corresponder. E não, não pense que estou dizendo que vai ser igual. Sempre tem alguém que se entrega mais, que ama mais, que se preocupa mais, que se machuca mais, mas tem que pelo menos ser proporcional. Pra levar uma relação sozinho, relacione-se com sua mão, que ela só vai te desapontar se você tiver cãimbra.
-Huahuahauhu, só você pra me fazer rir dessas putarias. Obrigado
-Você não precisa me agradecer. Não estou fazendo nada demais.
-Mas obrigado assim mesmo.

Eles se levantaram novamente e começaram a andar em direção ao Arpoador. Alguns grupos sentados na areia da praia, bebendo, conversando, rindo. Algumas pessoas namorando. Coisas bem comuns de ver na Cidade Maravilhosa, ainda mais num final de semana. O cheiro ocre de maconha ficava mais forte em alguns pontos, mas nada que fosse tão incômodo.

No Arpoador, brinquedos de criança, que os dois amigos prontamente tomaram pra si. Balanços e gangorras, e uma estrutura de ferro já desbotada, que usaram pra escalar. Eram crianças de novo, eram jovens e sem preocupações.

-Escuta...
-O quê?
-Você sempre diz pra gente não te agradecer...
-Não gosto de agradecimentos. Não faço nada pelos outros que eles não mereçam
-Mas eu não lembro de ter feito nada pra merecer.
-Também não fez nada para que não merecesse.
-Vontade de mijar...
-Isso sim é quebra clima. Vai ali no cantinho, nas pedras.
-Assim, na rua?
-Tá vendo algum banheiro público?
-Ahn, e se passar um PM, ou algum tarado?
-Se for bonito, mostra o pinto, vai que eles curtem?
-Porra, só você mesmo. Espera aí, não me larga aqui não heim?

-Pronto
-Sacudiu?
-LÓGICO né?
-Mas não chega perto de mim com essa mão de pinto.

Riram o riso inocente daqueles que não esperavam por nada. Saíram dos balanços em definitivo e subiram o Arpoador. Muitos esperavam o sol se esconder atrás das águas no horizonte, eles preferiam ver o sol se levantar. Quantas vezes não saíram das festas antes do término só pra ver o horizonte púrpura ganhar ares avermelhados, laranja e finalmente dourados?

-Escuta
-O que é? Mais alguma lição de sabedoria pra mim hoje?
-Pode não ser hoje, ou amanhã que seremos felizes, mas podemos nos alegrar por termos a possibilidade.
-Porra cara, não faz isso.
-Isso o quê?
-Você tem essas frases, essas coisas que me desmontam, que desmontam qualquer um.
-Você pode não ter dado certo com ele, mas enquanto estavam juntos, foi bom, e isso é o que importa. As lembranças; as memórias. E logo vc encontrará alguém pra fazer novas memórias.
-Deixa eu perguntar... você não está tentando, não é?
-Ao contrário; eu estou conseguindo me livrar das memórias; pra fazer memórias melhores, com novas pessoas.

E deram as costas ao nascer do sol pra esperar o metrô abrir. Não se abraçaram, nem deram as mãos. Não precisavam. As lágrimas que haviam caído no início da noite já eram passado. E ainda que outras viessem, estariam ali, um pelo outro.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Príncipe

Quando eu era pequeno, diziam que todas as meninas esperavam por um príncipe encantado; que chegaria num cavalo branco e as levaria pra longe, a salvariam dos problemas e eles viveriam felizes para sempre.

Essa história sempre me incomodou. Nem todas as meninas queriam ser salvas; nem todos os meninos queriam salvar meninas. Eu era um claro exemplo disso.

No fundo, talvez eu quisesse um príncipe pra mim; e assim que cresci, decidi por procurá-lo nos mais diversos lugares.

Conheci muita gente. De todas as cores, credos, costumes, hábitos, frequências cardíacas; mas nenhum me parecia o bastante. Um era muito novo, outro muito velho; um morava longe e outro morava muito perto. Um queria minha atenção a toda hora, o outro eu tinha que ficar procurando.

Alguns despertaram meu interesse, mas não foram capazes de fazer esse interesse durar mais que alguns meses. Às vezes algumas semanas. Nos piores casos, uns dias.

E em não encontrar um príncipe, eu fui levando a vida. Estudei, trabalhei. Conquistei meu próprio mundo, mas ainda sentia falta de alguém comigo. Precisava daquela companhia tão especial que tanto tinha sido dita.

Procurei em outros lugares, onde todos os gatos eram pardos e exalavam álcool de seus hálitos; às vezes misturado com nicotina. Às vezes com saliva de outros homens; ou outras coisas.

Procurei pelos museus, exposições de arte; procurei pelos shoppings.

Viajei em busca, mas encontrei apenas uma cama vazia, na qual eu me deitava à noite e esperava o sono chegar; E às vezes, só às vezes, ele vinha acompanhado de lágrimas amargas.

Com o passar dos anos e o aumento dos fios brancos, as minhas mãos marcadas ganharam veias mais salientes, e a disposição pra fazer as coisas foi diminuindo. Era chegada a hora de desistir da procura. Não encontraria o tal príncipe. Se não o encontrei jovem, não iria encontrá-lo na velhice.

Foi quando percebi que, por todo o tempo estive procurando o invisível; lutando contra moinhos de vento. Se tivesse dado uma chance a algum daqueles homens, não teria um príncipe ao meu lado, mas teria a companhia que sempre procurei.

Enquanto pensava que nenhum deles era suficiente pra mim, fui me transformando em alguém que não era suficiente, não era merecedor de nenhum deles.

Por isso hoje, rasgo as páginas desses contos de fadas, amargo, rancoroso. Transformei-me em bruxa má sem nem saber como; e não tem volta. É nisso que penso enquanto estas mãos calejadas e idosas despedaçam as páginas das histórias infantis em que ousei acreditar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Deslocado



Era uma vez um pássaro.
Quantas e quantas histórias começam com esse "era uma vez?" Esta não será exceção.

Era um pássaro um tanto quanto incomum, por sua própria natureza. Irritadiço, inquieto, incapaz de parar no mesmo lugar. Estava sempre batendo asas, procurando algo que sequer sabia o que era. Apenas batia as asas e deixava-se levar.

Às vezes ele procurava por outros pássaros; ficavam algum tempo juntos, mas logo em seguida os outros pássaros partiam em bando, e deixavam nosso protagonista para trás.

Em alguns dias ele se sentia triste; em alguns outros, rejeitado. Mas era fato que, em todos os dias ele não conseguia se sentir parte daquilo. Não se sentia parte de nada.

Nos dias mais quentes do ano, ele gostava de voar pra perto das praias. A comida era um pouco ruim, e difícil de achar, mas ele gostava de pisar sobre a areia, gostava daquele vento quente e sufocante, das gotículas de água salgada dançando no ar.

Nos dias de inverno ele procurava a copa das árvores, aquelas que ainda tinham muitas folhas pra protegê-lo do vento. Ele até tentava se aproximar dos grupos de pássaros se aquecendo, mas eles logo fugiam. Nosso protagonista era diferente, era estranho, era único em sua forma de ser, e isso o entristecia.

Quando chegava a primavera era a pior parte; ele queria companhia, ele sentia falta de ter alguém para si, se é que tais coisas são possíveis no mundo dos pássaros. Ele procurava nos lugares mais insólitos, nos mais óbvios, em todos os lugares, mas nada era capaz de aplacar sua solidão, ninguém queria sua companhia, ninguém era capaz de compartilhar algo com ele; ou assim ele enxergava.

Os anos foram passando, e ele foi ficando sério e sisudo. Sarcasmo era seu pão, sua ferramenta contra aqueles que o incomodassem em qualquer aspecto. Sua ironia marcava-se no olhar esguio, e na aparência de risada. Pássaros podem sorrir?

Mais tempo se passou. Mais tentativas frustradas de se relacionar com os outros. Um belo dia ele simplesmente desistiu. Achou que era melhor pra si mesmo. Deveria se poupar de sofrimentos inúteis.

Voou até o prédio mais alto que conhecia e ficou olhando a cidade. Viu bandos de pássaros voando pelos céus, viu outros pássaros menos felizes sendo deixados pra trás; E finalmente entendeu que não era questão de se sentir bem-vindo entre os outros. O mundo dele era mais do que os outros podiam ver. Sem que tivesse percebido, ele queria muito mais da vida de pássaro, ele queria muito mais da vida em si. Deixou-se cair do último andar, abrindo as asas e voando perto do chão. Seu coração pulsava, ele se sentia eufórico.

Tinha a certeza de que não seria aceito pelos outros pássaros, mas isso não era importante, ele havia encontrado prazer e satisfação em ser apenas ele mesmo, fazendo o que gostava, sem precisar se parecer com ninguém, ou imitar ninguém. Seu mundo havia se tornado maior do que os outros podiam se dar conta.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Refúgio

Ela abriu os olhos, devagar. A luz do sol machucava seus olhos, fazia com que ela se protegesse com a palma das mãos. Era uma manhã de primavera, com pequenos insetos pela grama, subindo em suas pernas, enquanto o farfalhar da grama fazia seus ouvidos coçarem.

"Atrasado de novo", ela pensou; e sentou-se, olhando à volta. famílias felizes brincando no parque, aproveitando alguns instantes antes do almoço. Apesar de ainda manhã, a hora já fazia-se bastante avançada.

Era sempre assim, e ela nunca aprendia. Devia passar a chegar mais tarde, visto que ele sempre se atrasava. Só porque tinham combinado de almoçar juntos e ela já estava ficando com fome. Dois meses de namoro e ele não tomava jeito. Engraçado que, quando criança - ela pensava- ele era sempre pontual; ela sempre o via já na escola enquanto ela ainda cruzava os portões...

E pensar que naquela época, ela não ia muito com a cara dele; o cabelo bagunçado, aquela tira de couro no pulso, que ele chamava de pulseira, os tênis com cadarços diferentes, tudo incomodava. Pode ser que ela estivesse enganada também, ela já se sentia atraída e não tinha consciência disso.

Os minutos passavam e nada de ele aparecer. Ela tentou ligar, mas encontrou apenas a resposta da caixa de mensagens. Ele não viria, tinha que se conformar com isso. Tinha tomado um cano.

Levantou da grama e foi andando na direção da lanchonete mais próxima; já que o almoço romântico tinha sido estragado, pra quê se incomodar em comer direito?

Foi quando ela o viu, pelo canto do olho. Não sabia quem era, mas tinha a nítida impressão de já tê-lo visto antes. Um arrepio percorreu sua espinha, ainda que não soubesse o porquê; mas tão rápido quanto ela tinha visto, ele desapareceu. Devia ter sido apenas impressão.

Ela comeu seu sanduíche devagar, ainda um pouco contrariada, mas não podia fazer nada naquele momento, apenas chamar a atenção dele quando se falassem. Tentou ligar novamente; desta vez ninguém atendeu. A primeira coisa que ela pensou foi "esqueceu o celular em casa"

Estava desapontada, desanimada. Pegou o ônibus e foi cabisbaixa pra casa.  Mudou de idéia no meio do caminho. Já que ele não teve consideração por ela, ela ia passar o dia fazendo coisas que gostava. Desceu na esquina do shopping, foi ao cinema, sessão dupla, porque ela julgava merecer, com bastante pipoca e refrigerante. Light, claro.

Riu de uma comédia romântica pastelão, daquelas que desde o início você sabe o que vai acontecer, e emendou com um filme de ação, daqueles com tantas balas e explosões que você acha que vai encontrar alguma cápsula perdida pelo cinema. Andou pelos corredores do shopping, mas nada chamou sua atenção o bastante pra comprar.

Mas ao virar um corredor, jurava tê-lo visto novamente, o homem que tinha visto mais cedo; e tão rápido quanto antes, ele novamente sumiu. Seria coisa de sua imaginação? Bem possível que fosse. Já que seu namorado não aparecia, homens misteriosos a estavam observando. Só assim pra se sentir desejada né? Em imaginação.

Riu sozinha enquanto via o sol descendo no horizonte através da parede de vidro. Já era tão tarde assim? Então era verdade que quando as pessoas se divertiam o tempo voava.

Não estava tão longe de casa, decidiu caminhar um pouco, pensar na vida, e em como aquele dia pra si mesma tinha sido bom.

Estava ali, caminhando, absorta em seus pensamentos, e nem reparou nos passos atrás dos seus. Quando se deu por conta; o coração acelerou, ela empalideceu e forçou as pernas pra tentar correr; todo o resto era  escuridão. Ela tentou gritar, e de repente, abriu os olhos.

Um sonho, um maldito pesadelo.

A dor a atingiu de repente, o sabor metálico na boca, que ela não conseguia fechar e não entendia o porquê, apenas sentia algo de metal, que a impedia de fechá-la. As mãos presas numa espécie de mesa. As pernas latejavam, como se estivem passando do período de dormência; sentia que estava nua, mas não lembrava de como tinha ido parar ali.

Invocou a todos os deuses e santos que conhecia. Foçou as mãos tentando, em vão, libertá-las, tentou erguer o corpo, mas viu que não conseguia.

Foi quando o cheiro tomou conta dela. Cheiro de excremento. Forte, como se não fosse limpo há muito tempo. Sentiu o vômito se formando na garganta dela; quis fechar a boca pra impedir e não conseguiu. Estava ali, debruçada, com aquela poça de vômito na frente do seu rosto, nua, naquele cômodo escuro.
Teve vontade de chorar quando o desespero tomou conta dela, mas por algum motivo as lágrimas não vinham.

Ouviu um ranger de metal seguido do surgimento de luz. Uma silhueta masculina "ahn, você se sujou? Vou ter que limpar de novo?" seguido da porta se fechando novamente. Ela ouvia os passos dele chegando perto, sentiu um pano fétido passado pelo seu rosto, limpando seu vômito. "Seja uma boa menina que logo eu trago sua janta".

Ouviu os passos dele cada vez mais distantes, e a luz inundou o cômodo novamente. Desta vez ela o viu, seu namorado. Uma massa de carne inerte, com o pescoço virado num ângulo impossível, perto da porta. As lágrimas caíram, finalmente. Não era sonho, era o que tinha acontecido realmente; ela estava ali, nas mãos de um desconhecido.

Ele acendeu a luz de repente. Os olhos lacrimejantes dela fecharam dolorosamente. "Ahn... está chorando? Está com saudades? Acho que está sentindo falta de mim... eu vou cuidar de você"

E ela nem podia gritar quando o viu abrindo o zíper da calça e se dirigindo para as costas dela. Não podia se mexer, não podia gritar, só podia chorar, e sentir dor. Decidiu então fechar os olhos, e pedir com todas as forças que sonhasse, sonhasse com um lugar longe dali, de uma vez por todas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Desejando

Por onde passava via os laços entre as pessoas. Mãos que se tocavam, lábios que se encontravam, olhares esguios que trocavam confidências.

Não com ele. Ele colocava as mãos nos bolsos da jaqueta e olhava para os lados, com a cabeça levemente inclinada pra baixo. O vento frio bagunçava ainda mais a franja desajeitada dele. Todos os amigos já tinham dito que a época já tinha passado; não pra ele. Ele gostava daquilo e não dava trabalho pra pentear.

O clube estava cheio, dava pra saber antes mesmo de chegar, pela quantidade de garrafas vazias abandonadas junto ao meio fio e pelas latinhas entulhadas em volta da lixeira. Uma trilha de pontas de cigarro tornava tudo mais fácil. Ele se lembrou de economizar, já que só tinha meio maço.

Na porta, a fila já virava a esquina. Não que isso fosse problema pra ele. Conhecia os DJS, conhecia o dono da boate; cumprimentou a quem devia e entrou, o nome dele já estava na lista.

As músicas de sempre, várias pessoas conhecidas, de longa data até. Ele foi até o bar e pegou uma cerveja barata; eram as melhores de se beber em boate. Subiu as escadas até o camarote, cumprimentando os seguranças no caminho.

A moça da lojinha veio ao seu encontro com um abraço apertado, um beijo no rosto. Tanto tempo que não se viam. É, ele estava um pouco sumido das baladas porque não via mais tanta graça assim. Ela dizia que entendia, que era coisa da idade mesmo, de procurar novos ares. Namorados ou namoradas? Nah, ninguém. Solteiro na pista e procurando, mas tava difícil.

Ela voltou pro trabalho dela, ele sentou no sofá vermelho e ficou olhando a pista lá embaixo. A interação entre as pessoas era fascinante. Alguns trocavam olhares, outros trocavam toques. Uns poucos pediam pros amigos os apresentarem. Ele se levantou e começou a dançar, desengonçado. Estava se divertindo, ou assim parecia. Alguns meninos subiram no palco e fizeram coreografias, ele riu enquanto tomava mais uma cerveja.

Lá pelo meio da noite ele desceu novamente, passando no meio da multidão. Os reservados do banheiro todos ocupados, dois pares de pernas podiam ser vistos em cada um deles. Não precisava ser vidente pra saber o que estava acontecendo. Ele andou até a parede, no mictório e abriu o zíper, cantarolando enquanto deixava a cerveja sair. Um cara parou do lado dele, começou a fazer o mesmo, dando espiadas de leve. Com um sacudir de cabeça ao mesmo tempo em que abotoava a calça e um pequeno riso tímido, o rapaz saiu sem nem ao menos lavar as mãos. Bem, não tinha papel pra secar mesmo.

As músicas ficavam mais lentas, podia ver os casais abraçados na pista, trocando beijos, alguns trocavam carícias impróprias. As luzes vermelhas e azuis incidiam exatamente sobre ele; e ele se sentia feliz; e ao mesmo tempo incompleto, mas não sabia o que faltava pra ele.

Voltou ao camarote e acendeu outro cigarro e outro depois. Talvez estivesse ficando velho pra este tipo de coisa. Talvez devesse frequentar outros lugares, ver outras pessoas. Talvez devesse desejar coisas diferentes.

Mas naquele momento, ele só conseguia olhar pra pista e ver a quantidade de casais; as pessoas juntas, de mãos dadas, e enquanto na mão dele, um cigarro e ocasionalmente uma cerveja. Talvez aquela não fosse a praia dele mesmo.

Terminou o cigarro, despediu-se de todos antes do final da festa e saiu. Não tinha ninguém esperando por ele. Ia pegar um táxi pra casa, que era mais confortável. A madrugada -que madrugada ? Era quase manhã- continuava fria, e ele fechou a jaqueta. Caminhava devagar em direção ao ponto de táxi perto da esquina.

E foi quanto tudo ficou preto por um instante

Ele ouviu um cantar de pneus, mas não sabia ao certo de onde tinha vindo.

Abriu os olhos pra ver rostos desconhecidos sobre ele. Quem eram aquelas pessoas? O quê estavam fazendo ali?

Foi quando se deu conta de que podia ver o sol. a moça inclinada sobre ele movia os lábios, mas ele não conseguia entender o que ela dizia. Tudo era tão estranho.

A moça continuava inclinada sobre ele. Ela estava chorando? Será que ela tinha olhado na direção do sol? Sem saber por qual motivo, algo dentro dele mudou, e ele podia sentir sua mão se movendo em direção ao rosto dela.

A mão dela encontrou a dele no caminho. Era quente, macia. Ele desejou poder segurar a mão dela por mais tempo.

E fechou os olhos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Diferente

Desde criança sei que não sou como os demais. Algo dentro de mim nunca pareceu certo, e foi bem antes do divórcio dos meus pais. Não adianta jogar a culpa nisso agora, como eu vejo muita gente fazendo: "ahn, é culpa dos meus pais que não me amavam, é culpa do meu pai ter saído de casa, é culpa da minha mãe ter fugido com outro homem". Não é meu caso; sempre fui diferente de todos os outros, mesmo antes de saber o que significava.

Na escola eu tinha notas médias, era mais um rosto na multidão de meninas e meninos. Escola pública, não podia esperar muita qualidade ou exclusividade; andava com ambos grupos e ninguém parecia se importar; podia ser apenas a representação de mim enquanto estava com eles.

Mas nada permanece igual por muito tempo, as coisas sempre mudam, sempre se alteram, e quase sempre de forma desagradável para aqueles que são minoria. A minha diferença começava a gritar pros outros, começava a impedir que as outras pessoas chegassem a mim e vice-versa. Enquanto que pra mim, continuava a mesma pessoa, nos mesmos mínimos detalhes, fazendo as mesmas coisas.

A adolescência chegou, o corpo começou a mudar, e não sei como, mas o meu mudava ainda mais devagar. Parecia que eu não ia mudar. Eu não queria mudar. As meninas já desfilavam com seus sutiãs, os meninos exibiam orgulhosos sua penugem debaixo do braço e eu mostrava um sorriso amarelo de descontentamento.

Casais começaram a surgir. Bilhetinhos trocados, passados de mão em mão durante as aulas. Mãos dadas no intervalo. Aquele roçar de lábios com a boca fechada que chamavam de beijo. Mas não comigo, nunca pra mim. Ou assim eu achava.

O nome dela era Laura, e no momento em que eu a vi, tudo ficou diferente. Algumas semanas se passaram até eu vê-la de novo. Conversamos; ela riu, me olhou esquisito e se despediu. Não mais a vi. Ainda sonho com ela de vez em quando, do sorriso sem-graça, do olhar desejando que eu saísse de perto; meu peito dispara quando acordo. Dá uma sensação triste de vazio; o peso de ser diferente faz com que minhas costas se curvem aos poucos, ou assim parece.

Meses se passam, muitos meses na verdade; os anos vão se passando devagar, e eu vejo as pessoas mudando, a cidade mudando, o peso da diferença nas minhas costas cada vez maior. Lido com os olhares, os insultos, as pessoas que não entendem ou não querem entender como sou.

Um dia, voltando à noite, um pastor me abordou, me jogou no chão e orou pela minha alma, enquanto mulheres vestindo sacos, ou túnicas gritavam ao seu redor. Enquanto eu me recompunha e corria, me chamavam de demônio, mandavam eu voltar pro inferno. Não é o tipo de coisa que vemos.

Eu sei que tem algo diferente com a minha cabeça, e sou feliz com isso, não entendo a necessidade dos outros de me dizerem que é feio, que é errado, que é imoral. Não entendo a necessidade dos outros de se provarem tão melhores que eu em coisas com as quais não me importo.

Pessoas diferentes são protagonistas das mesmas tragédias, incapazes de mudar, sofrem sozinhas; buscam apoio em psicólogos, psiquiatras; buscam refúgio na bebida, nas drogas, no sexo... eu nem sei como são essas coisas. Masturbação mesmo eu só fui saber exatamente como era quando já tinha meus 16 anos. E olha que não achei lá essas coisas.

E eu vejo que as tragédias aumentam cada vez mais, e cada vez mais as pessoas me urgem a deixar esse meu lado diferente, a abraçar o que é comum, o que é certo, o que todos fazem. Cortar laços com as coisas erradas.

Então, com a pequena faca de limpar carne da cozinha, eu me livro do que é diferente, procuro fazer rápido pra não sentir dor.

O baque surdo não acorda ninguém, e o último barulho de que me dou conta é de um pequeno esguichar de  sangue que sai do meu pescoço.

Se não pensar, não preciso ser diferente; se não tivesse a cabeça que tenho, seria mais fácil.

Quem sabe agora pode ser fácil...