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quinta-feira, 28 de março de 2013

Estrelas

Ontem à noite estava quente demais pra dormir; por mais que eu tentasse, fiquei rolando na cama; de um lado pro outro. Quando cansei, quando finalmente os lençóis se desprenderam e começaram a me incomodar, fui pro terraço.

Tá, não é um terraço. É a laje. E tudo bem, não é arrumada, nem nada, é apenas uma laje comum. Levei um colchonete velho, daqueles que a gente leva em viagem e fiquei sentado, olhando a rua. Cachorros passeavam, fugidos da casa de seus donos. Gatos desfilavam orgulhosos sobre os muros; rabos em pé, desdenhando dos cachorros; e então vi que tudo isto estava apenas na minha cabeça.

Uma infinidade de coisas passava pela minha cabeça, e eu sempre com esse hábito de inventar histórias pros animais, pros outros, porque assim, não pensava imediatamente nas coisas que tinham que ser resolvidas.

Amores perdidos, carreiras fracassadas, problemas familiares, discussões com amigos, lágrimas derramadas, corações despedaçados, entrecortados por manhãs preguiçosas e sorrisos sinceros com café quente e biscoitos amanteigados num prato de louça. Já não fazia mais sentido ouvir meus pensamentos.

E lá longe, as estrelas piscando - porque pra mim, elas piscam, não podem brilhar todo o tempo sem piscar- e uma lua cheia pálida, querendo desesperadamente ir à praia se estender na areia e ficar com marquinha de bikíni. Uma lua que não brilhava, mas refletia a luz que recebia, como algumas pessoas.

Como eu.

Às vezes não basta ser um corpo celeste; não basta ser lua e refletir a luz dos outros quando queremos ser estrelas e brilhar por nós mesmos; e na maior parte do tempo, ficamos por lá, jogados, piscando pras coisas que acontecem na nossa vida, nos movendo devagar demais pra fazer alguma diferença.

O colchonete já não me dá conforto; levanto e ergo os braços na tentativa fútil de alcançar as estrelas brilhando. Os pés já não tocam mais o chão; e de repente, não é mais sonho, não é mais devaneio. Eu me sinto queimar por dentro, eu me sinto brilhar e me erguer, e decido ir o mais alto e o mais longe. Não quero ser comum, não quero refletir. Quero ser. Quero brilhar.

Mais que qualquer coisa, quero ter meu espaço.

E me lembrei de que um dia me disseram que muitas das estrelas que vemos já estão mortas. O que vemos é apenas sua luz que continuou viajando até chegar aqui.

Não faz mais diferença. As estrelas que queimam mais rápido também são aquelas que brilham mais forte. Vou subir, vou ascender e acender, viro supernova dentro de mim mesmo, cortando a atmosfera verticalmente até o céu, e além dele.

E a Terra é azul.

Mas isso não vai me impedir de continuar. Cometas, meteoros, planetas ao longe, outras estrelas, todas as coisas vão passando diante de mim, e eu num esforço para não piscar, para não perder nada.

Não me basta, nada me basta, quero ir além dos meus próprios limites, quero saber até onde posso chegar.

Sou supernova, incandescende, flamejante. Sou mais, vou além. Melhor que tudo isso: sou.


Acordo no terraço com os amanhecer. Os problemas eu sei que não desapareceram, mas pelo menos eu sei que atitude posso tomar na vida daqui por diante.

sábado, 2 de março de 2013

Lágrimas

-Não gosto quanto você chora assim, sem motivo.
-Eu tenho motivos pra chorar. Ele terminou comigo. Assim, do dia pra noite, sem mais nem menos.
-Então, você deveria estar feliz, tem sua liberdade de volta.
-Eu não quero liberdade, quero companhia.

Alguns segundos de silêncio seguiram-se naquela mesa de lanchonete. Já estava quase na hora de fechar, e os dois sabiam que teriam que ir embora. A questão é: para onde? Nenhum dos dois tinha pra onde ir naquela noite estrelada.

-Você tem companhia. Tem sua família, seus amigos, seus colegas de trabalho.
-Você me entendeu. Eu estou cansado de relacionamentos frustrados, de depositar minhas esperanças em alguém que só vai me sacanear.
-E ainda assim, você continua tentando.
-Todos continuamos tentando, não é assim que é pra ser?
-Eu não acredito nisso. Eu acredito que nascemos pra ficar bem, seja com os outros, ou conosco. Nascemos pra conquistas, pra realizações, não nascemos pra sonhos que se tornam pesadelos.

Um atendente veio perguntar se eles iam querer mais alguma coisa da cozinha. Ambos disseram que não, deram boa noite e encaminharam-se à porta.

-E agora, você tem que ir?
-Não vou deixar você chorando pela rua numa noite de sábado, sozinho. Eu seria uma merda de amigo se fizesse isso.
-Nah, pode ir, já passou o pior, vou ter que lidar com isso. Ainda tenho muito o que chorar.
-Então, não tem que chorar sozinho.

Eles se abraçaram e continuaram em silêncio. Um morador de rua os chamou de viados, e foi ignorado. Caminharam em direção à praia, com a areia já suja, e o vento gelado. Sentaram-se num banco no calçadão e ficaram olhando as pequenas ondas da maré baixa trazendo sujeira pra areia branca.

-Às vezes eu acho que o problema é comigo, sabe? Nunca dá certo, com ninguém. Já tentei diversas pessoas diferentes, já me adaptei a muita coisa, e sempre é assim, tomo um pé na bunda por motivos escrotos, com razões absurdas.
-Às vezes o problema é você mesmo. Fica tentando se adaptar enquanto os outros permanecem os mesmos. Uma relação nunca vai ser levada a frente se é unilateral. Não adianta você investir 200% de si mesmo quando a pessoa é incapaz de corresponder. E não, não pense que estou dizendo que vai ser igual. Sempre tem alguém que se entrega mais, que ama mais, que se preocupa mais, que se machuca mais, mas tem que pelo menos ser proporcional. Pra levar uma relação sozinho, relacione-se com sua mão, que ela só vai te desapontar se você tiver cãimbra.
-Huahuahauhu, só você pra me fazer rir dessas putarias. Obrigado
-Você não precisa me agradecer. Não estou fazendo nada demais.
-Mas obrigado assim mesmo.

Eles se levantaram novamente e começaram a andar em direção ao Arpoador. Alguns grupos sentados na areia da praia, bebendo, conversando, rindo. Algumas pessoas namorando. Coisas bem comuns de ver na Cidade Maravilhosa, ainda mais num final de semana. O cheiro ocre de maconha ficava mais forte em alguns pontos, mas nada que fosse tão incômodo.

No Arpoador, brinquedos de criança, que os dois amigos prontamente tomaram pra si. Balanços e gangorras, e uma estrutura de ferro já desbotada, que usaram pra escalar. Eram crianças de novo, eram jovens e sem preocupações.

-Escuta...
-O quê?
-Você sempre diz pra gente não te agradecer...
-Não gosto de agradecimentos. Não faço nada pelos outros que eles não mereçam
-Mas eu não lembro de ter feito nada pra merecer.
-Também não fez nada para que não merecesse.
-Vontade de mijar...
-Isso sim é quebra clima. Vai ali no cantinho, nas pedras.
-Assim, na rua?
-Tá vendo algum banheiro público?
-Ahn, e se passar um PM, ou algum tarado?
-Se for bonito, mostra o pinto, vai que eles curtem?
-Porra, só você mesmo. Espera aí, não me larga aqui não heim?

-Pronto
-Sacudiu?
-LÓGICO né?
-Mas não chega perto de mim com essa mão de pinto.

Riram o riso inocente daqueles que não esperavam por nada. Saíram dos balanços em definitivo e subiram o Arpoador. Muitos esperavam o sol se esconder atrás das águas no horizonte, eles preferiam ver o sol se levantar. Quantas vezes não saíram das festas antes do término só pra ver o horizonte púrpura ganhar ares avermelhados, laranja e finalmente dourados?

-Escuta
-O que é? Mais alguma lição de sabedoria pra mim hoje?
-Pode não ser hoje, ou amanhã que seremos felizes, mas podemos nos alegrar por termos a possibilidade.
-Porra cara, não faz isso.
-Isso o quê?
-Você tem essas frases, essas coisas que me desmontam, que desmontam qualquer um.
-Você pode não ter dado certo com ele, mas enquanto estavam juntos, foi bom, e isso é o que importa. As lembranças; as memórias. E logo vc encontrará alguém pra fazer novas memórias.
-Deixa eu perguntar... você não está tentando, não é?
-Ao contrário; eu estou conseguindo me livrar das memórias; pra fazer memórias melhores, com novas pessoas.

E deram as costas ao nascer do sol pra esperar o metrô abrir. Não se abraçaram, nem deram as mãos. Não precisavam. As lágrimas que haviam caído no início da noite já eram passado. E ainda que outras viessem, estariam ali, um pelo outro.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Refúgio

Ela abriu os olhos, devagar. A luz do sol machucava seus olhos, fazia com que ela se protegesse com a palma das mãos. Era uma manhã de primavera, com pequenos insetos pela grama, subindo em suas pernas, enquanto o farfalhar da grama fazia seus ouvidos coçarem.

"Atrasado de novo", ela pensou; e sentou-se, olhando à volta. famílias felizes brincando no parque, aproveitando alguns instantes antes do almoço. Apesar de ainda manhã, a hora já fazia-se bastante avançada.

Era sempre assim, e ela nunca aprendia. Devia passar a chegar mais tarde, visto que ele sempre se atrasava. Só porque tinham combinado de almoçar juntos e ela já estava ficando com fome. Dois meses de namoro e ele não tomava jeito. Engraçado que, quando criança - ela pensava- ele era sempre pontual; ela sempre o via já na escola enquanto ela ainda cruzava os portões...

E pensar que naquela época, ela não ia muito com a cara dele; o cabelo bagunçado, aquela tira de couro no pulso, que ele chamava de pulseira, os tênis com cadarços diferentes, tudo incomodava. Pode ser que ela estivesse enganada também, ela já se sentia atraída e não tinha consciência disso.

Os minutos passavam e nada de ele aparecer. Ela tentou ligar, mas encontrou apenas a resposta da caixa de mensagens. Ele não viria, tinha que se conformar com isso. Tinha tomado um cano.

Levantou da grama e foi andando na direção da lanchonete mais próxima; já que o almoço romântico tinha sido estragado, pra quê se incomodar em comer direito?

Foi quando ela o viu, pelo canto do olho. Não sabia quem era, mas tinha a nítida impressão de já tê-lo visto antes. Um arrepio percorreu sua espinha, ainda que não soubesse o porquê; mas tão rápido quanto ela tinha visto, ele desapareceu. Devia ter sido apenas impressão.

Ela comeu seu sanduíche devagar, ainda um pouco contrariada, mas não podia fazer nada naquele momento, apenas chamar a atenção dele quando se falassem. Tentou ligar novamente; desta vez ninguém atendeu. A primeira coisa que ela pensou foi "esqueceu o celular em casa"

Estava desapontada, desanimada. Pegou o ônibus e foi cabisbaixa pra casa.  Mudou de idéia no meio do caminho. Já que ele não teve consideração por ela, ela ia passar o dia fazendo coisas que gostava. Desceu na esquina do shopping, foi ao cinema, sessão dupla, porque ela julgava merecer, com bastante pipoca e refrigerante. Light, claro.

Riu de uma comédia romântica pastelão, daquelas que desde o início você sabe o que vai acontecer, e emendou com um filme de ação, daqueles com tantas balas e explosões que você acha que vai encontrar alguma cápsula perdida pelo cinema. Andou pelos corredores do shopping, mas nada chamou sua atenção o bastante pra comprar.

Mas ao virar um corredor, jurava tê-lo visto novamente, o homem que tinha visto mais cedo; e tão rápido quanto antes, ele novamente sumiu. Seria coisa de sua imaginação? Bem possível que fosse. Já que seu namorado não aparecia, homens misteriosos a estavam observando. Só assim pra se sentir desejada né? Em imaginação.

Riu sozinha enquanto via o sol descendo no horizonte através da parede de vidro. Já era tão tarde assim? Então era verdade que quando as pessoas se divertiam o tempo voava.

Não estava tão longe de casa, decidiu caminhar um pouco, pensar na vida, e em como aquele dia pra si mesma tinha sido bom.

Estava ali, caminhando, absorta em seus pensamentos, e nem reparou nos passos atrás dos seus. Quando se deu por conta; o coração acelerou, ela empalideceu e forçou as pernas pra tentar correr; todo o resto era  escuridão. Ela tentou gritar, e de repente, abriu os olhos.

Um sonho, um maldito pesadelo.

A dor a atingiu de repente, o sabor metálico na boca, que ela não conseguia fechar e não entendia o porquê, apenas sentia algo de metal, que a impedia de fechá-la. As mãos presas numa espécie de mesa. As pernas latejavam, como se estivem passando do período de dormência; sentia que estava nua, mas não lembrava de como tinha ido parar ali.

Invocou a todos os deuses e santos que conhecia. Foçou as mãos tentando, em vão, libertá-las, tentou erguer o corpo, mas viu que não conseguia.

Foi quando o cheiro tomou conta dela. Cheiro de excremento. Forte, como se não fosse limpo há muito tempo. Sentiu o vômito se formando na garganta dela; quis fechar a boca pra impedir e não conseguiu. Estava ali, debruçada, com aquela poça de vômito na frente do seu rosto, nua, naquele cômodo escuro.
Teve vontade de chorar quando o desespero tomou conta dela, mas por algum motivo as lágrimas não vinham.

Ouviu um ranger de metal seguido do surgimento de luz. Uma silhueta masculina "ahn, você se sujou? Vou ter que limpar de novo?" seguido da porta se fechando novamente. Ela ouvia os passos dele chegando perto, sentiu um pano fétido passado pelo seu rosto, limpando seu vômito. "Seja uma boa menina que logo eu trago sua janta".

Ouviu os passos dele cada vez mais distantes, e a luz inundou o cômodo novamente. Desta vez ela o viu, seu namorado. Uma massa de carne inerte, com o pescoço virado num ângulo impossível, perto da porta. As lágrimas caíram, finalmente. Não era sonho, era o que tinha acontecido realmente; ela estava ali, nas mãos de um desconhecido.

Ele acendeu a luz de repente. Os olhos lacrimejantes dela fecharam dolorosamente. "Ahn... está chorando? Está com saudades? Acho que está sentindo falta de mim... eu vou cuidar de você"

E ela nem podia gritar quando o viu abrindo o zíper da calça e se dirigindo para as costas dela. Não podia se mexer, não podia gritar, só podia chorar, e sentir dor. Decidiu então fechar os olhos, e pedir com todas as forças que sonhasse, sonhasse com um lugar longe dali, de uma vez por todas.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Banco

Sentada, ela estava a esperar.

Os olhos fixos no horizonte, naquela tarde de sol escaldante. Pequenos insetos faziam uma festa pelo ar, mosquitos oportunistas banqueteavam-se nas pernas daqueles que esperavam o ônibus.

Ela ouvia com atenção as conversas dos outros, piscando apenas pra lubrificar os olhos. Ouvia histórias felizes e tristes; de reunião e de separação. Via pessoas subindo no ônibus com destino certo, via pessoas indecisas quanto ao próprio caminho. Via pessoas perguntando sobre o itinerário para o motorista.

Quando ela ficava cansada por estar no mesmo lugar, levantava e esticava as pernas, com delicadeza. O vestido florido que ela usava balançava de leve ao vento morno. O cabelo castanho claro, preso num coque; os lábios com um batom simples, sem cor.

Não podiam dizer que era bonita, mas também não era feia. Quantos anos devia ter? Trinta? Quarenta? Não dava pra saber ao certo; mas também, não tinha ninguém pra perguntar a ela. As pessoas apenas chegavam ao ponto, esperavam um pouco e seguiam seu caminho. Alguns nos ônibus grandes; outros nuns ônibus pequeninos e barulhentos. Alguns outros ficavam por muitos minutos, impacientes, batendo os pés no chão, proferindo insultos quando o ônibus finalmente apontava no horizonte.

Os ponteiros do relógio se moviam devagar e pequenas ondas de calor desprendiam-se do asfalto. Algumas senhoras recém-chegadas secavam o suor com lenços brancos, com monogramas. Coisas que não se via há muito tempo. Trajadas de preto; certamente iam a algum enterro; não que fosse importante.

Crianças andando de bicicleta, sem respeitar a distância entre os carros. Alguns adolescentes de skate. A mulher no vestido florido voltou a se sentar no mesmo lugar. Uma linha de formigas passava por debaixo do banco, cada qual com seu pedacinho de folha nas costas.

Um homem de terno sentou-se do lado dela; ofereceu um folheto, que ela educadamente aceitou e colocou na bolsa. Havia uma bolsa; pequena, ao lado dela. O homem se levantou, começou a falar e falar e falar, cada vez mais vermelho e suado. Fala com ênfase, com autoridade, por vezes cuspia pequenas gotículas de saliva. Ela parecia constrangida diante dele, que falava sem parar; tentou colocar a mão sobre a cabeça dela, ela se desvencilhou. Outras pessoas se aproximaram dele. Era óbvio que ela estava sendo perturbada. Colocaram o homem num ônibus e ele foi embora, enquanto duas mulheres falavam com a do vestido florido.

Ela parecia bem. Voltou à sua atividade habitual de olhar no horizonte, em direção ao final da rua, de onde vêm os ônibus. As pessoas tomaram seus rumos. Umas foram pra casa, outras pro trabalho. Logo ela estava sozinha novamente..

E quando o sol começa a descer por entre os prédios atrás da minha casa, eu vejo ela se levantar e andar de forma tímida, sempre no sentido da rua.

Ela anda devagar, mas num ritmo constante. Lá no final da rua, antes da curva, tem uma casa com um jardim tomado pelo mato. Ela abre o portão, que não tem chave e segue um caminho de pedras pequenas, no meio do matagal. Lá dentro tem uma casa antiga, com uma varanda clássica, e um banco de madeira, que já passou por dias melhores. Ela se senta e continua olhando.

É então que daqueles olhos inexpressivos parece cair uma lágrima, mas percebo que não são lágrimas dela. São minhas. Ela continua sentada, inexpressiva, olhando pra algo que eu não consigo determinar o que é.

Assim ela faz todos os dias. Ou pelo menos, tem feito isso todos os dias, inclusive finais de semana, já tem uns cinco anos que percebi. Sempre achei estranho aquela moça no ponto de ônibus em frente  à minha casa, ficar a tarde inteira sem pegar ônibus nenhum, nunca.

Acho que essa moça é triste. Acho não; tenho certeza. Ela parece estar esperando sempre por algo, algo que talvez nunca vá chegar. Talvez ela tenha perdido alguém, e esteja desiludida por isso.

Ou será que está deprimida? Vi na televisão que depressão é um caso sério, e hoje em dia muita gente sofre de depressão sem saber.

Qualquer que seja o problema dela, me corta o coração cada vez que a vejo sentada naquele banco, parada, inerte, congelada no tempo. Sempre com seus vestidos floridos e cabelos em coque. As bolsas, umas maiores outras menores do lado, sempre olhando no final da rua, esperando algo que não vem, aguardando um destino ignorado.

Por vezes, tenho pesadelos em que sou essa pobre mulher, e acordo gritando. Não com pena dela. Com pena de mim mesma. E medo. Muito medo de acabar assim, esperando por algo que nunca virá; vivendo uma vida vazia enquanto espero um fim.

domingo, 16 de setembro de 2012

Confissão

Ele estava mais bonito do que eu conseguia me lembrar. Talvez eu estivesse mentindo pra mim mesmo sobre ele ser feio, assim não ia doer tanto o fato de estarmos separados. Sempre é ruim afastar-se do que é bom, do que é gostoso, do que é bonito, e ainda mais do que junta as três qualidades.
Dedos se movendo silenciosos sobre as coxas, mostrando tensão. Os dentes cerrados, o olhar vago, sempre fitando  a porta na lateral esquerda da cafeteria. Ele não tinha mudado em nada, ou talvez eu tivesse mudado demais. Senti as pernas fraquejarem ao cruzar a porta, a respiração ficou pesada, e não havia como evitar.

Ao sentar, ele já está tomando café; eu decido pedir o mesmo. Antes que ele tenha a chance de dizer alguma coisa, eu o interrompo com a minha voz irritante. Preciso ter a chance de dizer tudo o que não foi dito.

"Sinto falta do 'nós', mas aprendi que o 'eu' é importante demais pra viver sob a sua sombra, esperando uma demonstração de afeto que nunca virá. Aprendi que seu medo de relações faz com que você embarque em inúmeras, sempre sabendo que não é capaz de se comprometer com nenhuma. Aprendi que estou melhor do jeito que estou, mas nada disso me impede de pensar que, se você tivesse me dado uma chance, se tivesse nos dado uma chance, eu realmente queria, e acho que conseguiria fazer você mais feliz.
Não importa o quão fortes e honestos sejam meus sentimentos; não existe relação criada apenas por uma das partes.
Não importa quantas chances eu ofereça, sei que você não aceitará nenhuma; e permaneceremos para sempre estagnados neste momento sem fim"


Ele parece perplexo. Não estava esperando por isso. Na verdade, nem eu estava. Tornou-se maior do que eu e tinha que ser dito.

"Eu quis te encontrar pra dizer que estava errado"

Pode ser que estivéssemos os dois errados, mas não havia mais tempo hábil pra desculpas, ou pra consertos. Infelizmente, os danos já haviam sido feitos, para ambos..


O que restava pra nós dois era apenas terminar o café, pegar a conta e seguir cada um seu caminho, amargurados pelas lembranças do que poderia ter sido.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Abandono

   Na primeira noite, ela sentiu o frio do aço afiado contra sua garganta, enquanto os dois homens sujos arfavam e babavam por sobre o seu corpo. Ela se sentia violada, enojada, e tão logo acabaram, cuspiram sobre seu corpo caído por entre as folhas e partiram em gargalhadas.
   Ela juntou os farrapos e se encolheu de encontro a uma árvore, as folhas secas sob seus pés descalços, e descobriu que não tinha mais lágrimas pra derramar. Sentia o rosto queimando, de onde o murro a acertara. Provavelmente ficaria uma marca, mas ela não tinha que se preocupar com isso. Não tinha ninguém que olhasse por ela, não tinha quem se preocupasse com ela.
   Num esforço sobre-humano ela se ergueu, abraçou a grande árvore naquela noite quase sem estrelas, e um pé depois do outro começou a subir, devagar. Ela procurou abrigo entre os galhos mais altos que conseguia alcançar. Alguns pássaros adormecidos se assustaram, mas ela os tranquilizou com o olhar, aninhou-se num nó dos galhos e adormeceu, pendurada, protegida pelas folhas.

   O dia seguinte passou muito rápido, ela tinha aprendido como catar os restos das lixeiras grandes, perto do parque das crianças, antes que os outros habitantes do parque viessem. Desde que ela não fosse vista, estava tudo bem; nenhuma criança ia gritar, nenhuma babá ia atirar coisas contra ela.
   Nas tardes de sol ela costumava olhar os jornais velhos, esquecido sobre os bancos de madeira. Ela não sabia ler, nem reconhecer as letras. Não entendia nada sobre os números da bolsa de valores que estampavam as manchetes. Ela olhava as fotos mais diversas. Algumas eram coloridas. Mostravam pessoas sorrindo, algumas pessoas tristes. Havia também quadrinhos, que ela não entendia, mas via desenhos; e às vezes até tentava reproduzí-los na caixa de areia.
   Quando não havia sol, e o parque estava deserto, ela molhava os pés no córrego perto dos brinquedos, e sentava devagar nos balanços e ficava se sacudindo. Às vezes esticava a mão bem alto como se pudesse alcançar o céu, como se aquelas nuvens lá longe pudessem vir buscá-la.
   Mas quando começava a anoitecer, ela se empoleirava de novo, os olhos brilhando na escuridão verde das folhas das árvores.

   Quando chovia, ela coletava as penas caídas dos pássaros e enchia seus bolsos surrados. Havia penas de todas as cores, e era como se cada uma tivesse uma história, cada uma delas era um tesouro secreto que não fazia sentido pra mais ninguém, mas enquanto estivessem em seus bolsos, ela se sentia rica, se sentia feliz.

   Era uma tarde de domingo, bem cinzenta por sinal, e ela estava sentada num banco, olhando suas penas recém adquiridas, quando um outro morador do parque sentou perto dela. Ela se encolheu por instinto, preparada pra correr. Ele não fez nada senão colocar no banco um punhado de penas caídas, e sorriu, com uma boca cheia de pedaços podres de dentes, restos de pão no emaranhado de sua barba.
   Ela sorriu de volta, e devagar estendeu a mão e pegou as penas. Colocou-as todas no bolso e saiu correndo. Isso se tornou constante. Toda semana o velho sem dentes deixava um punhado de penas sobre o banco, mesmo que ela não estivesse lá. Ela passou a juntar alguns restos de comida pra ele, deixava depois de coletar as penas.

   O tempo passou devagar, veio o Outono e o Inverno, com as árvores quase secas. Eles se viam com menos frequência. Um belo dia sem nuvens, ela o estava esperando com alguns restos limpos de sanduíches. Parecia que a criança os tinha jogado fora com a embalagem. Ela sorriu com aqueles olhos vagos e inexpressivos. Já haviam perdido o brilho.
  Ele finalmente juntou coragem e disse um "Obrigado por dividir sua comida", com aquele sorriso desdentado e fétido. Ela estava inocentemente balançando os pés descalços.

"Você não deveria ficar sozinha aqui no parque, é perigoso"
Ela deu de ombros
"Você tem algum problema? Não sabe falar"
Ela se levantou e foi até o balanço, e ficou a balançar. Ele se aproximou novamente.
"Nem sempre eu fui assim. Eu tinha um emprego, tinha minha esposa e filho, e ela me abandonou por outro homem. Eu comecei a beber, perdi o que tinha, e sei que nunca mais vou ter alguma coisa na vida de novo. Qual é a sua história?"

Ela desceu do balanço e ficou de frente pra ele, o sol já estava se pondo atrás dela, com um brilho alaranjado. Ela abriu a boca num fio de voz. Era bem baixo, tímido, mas ao mesmo tempo inesquecível.

"Eu sempre estive aqui. Sempre estive esperando por alguém que me buscasse, alguém que me mostrasse que as pessoas valem à pena, e a única coisa que eu recebi foram os restos, os socos e pisões das pessoas. Recebi o cuspe delas no rosto, os gritos e as coisas que me atiravam. Recebi a violência delas e tive que aprender a conviver. Quando eu vim pra cá, eu achei que era capaz de fazer a diferença. Queria fazer algo importante, queria fazer algo melhor. Mas infelizmente, acho que vocês não estavam prontos pra isso"
Ele estava assustado. Achou que ela tinha algum problema mental. Pobrezinha. Tão bonita e louca.
"Não precisa entender. A maior parte das pessoas nunca entendeu. Eu sou um pequeno milagre, assim, do jeito que sou. Um milagre que nunca teve a chance de acontecer, e agora que o inverno chegou e meu tempo acabou, eu vou embora, vou voltar pro lugar de onde eu vim, vou voltar pra onde os dias são tranquilos e cheios de sorrisos sinceros. Obrigado por ter falado comigo, por ter compartilhado essas penas comigo. Pra maior parte das pessoas é lixo, mas são meu pequeno tesouro".

   E com isso, ela desapareceu num piscar de olhos do homem. Ele coçou os olhos várias vezes tentando acreditar, perguntou-se se tinha bebido, mas não. No lugar onde a menina de olhos tristes estava, um punhadinho de penas foscas, sem brilho, um pequeno milagre que tinha existido, e tinha acabado, sumido, desaparecido.
    Um pequeno milagre entre os homens, e ninguém se deu conta.



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quebrado...



Sou quebrado, das mais diversas e impensáveis formas...

Choro ao anoitecer, na dúvida de que existirá um amanhã melhor que o hoje, e na esperança de ser capaz de fazer a diferença
Choro de solidão, por ser incapaz de criar pontos que sejam capazes de ir até o coração de alguém.
Sou um romântico à moda antiga, incurável, daqueles que já nasce velho, já nasce apaixonado pelo viver, pelo perfume das rosas vermelhas acompanhadas de caixas de chocolate, mesmo que hoje em dia as rosas estejam murchas.
Sou daqueles que olha ocasionalmente o telefone esperando ver uma mensagem dizendo que alguém sente minha falta, ou imaginando que ele vai tocar e alguém vai dizer "pensei em você", e isso nunca acontece.
Sou daqueles que sonha com situações impossíveis, escrevo no caderno, imagino como seriam as fotos, as conversas, imagino cada detalhe, apenas pra apagar depois, porque sei que nunca vão acontecer.
Acordo muito cedo às vezes, mas fico com preguiça de levantar da cama porque sei o que me espera.
E o médico pode até dizer que é depressão, mas o que ele sabe MESMO sobre depressão? O que ele sabe sobre mim?
E quando eu tento conversar com alguém, alguém a quem considero um colega, percebo que ele está muito imerso em seu próprio mundo pra que eu possa contar do meu. Posso culpá-lo? Claro que não, eu que seja capaz de lidar com todas as nuances da minha vida.
Às vezes eu me reviro na cama, tentando olhar as estrelas, e esqueço que do lado de fora da minha janela tem uma árvore cujas folhas impedem a visualização do céu.
E o meu gato que fica ronronando quando eu passo a mão no pescoço dele, é o primeiro a fugir quando abro a porta da cozinha
Talvez, nesse mundo mutável, eu tenha permanecido o mesmo por tempo demais, e esqueci como mudar.
Talvez eu não precise mudar, porque já me aceitei como sou
Talvez, só talvez eu definitivamente esteja quebrado, como os brinquedos esquecidos no fundo das grandes lojas, eternamente esperando pra que alguém me leve até o caixa.
Mas quem pagaria por um brinquedo quebrado, quando pode ter um inteiro?

Talvez estejamos todos quebrados, esperando alguém que nos conserte; perdidos numa sociedade que diz que devemos ser jogados fora e substituídos por um novo.

Talvez... só talvez.... um universo de "talvez" que sufoca e arranca cada palavra não-dita, cada palavra que se tenta escrever


E aí, o plástico da embalagem não deixa mais passar ar, a luz nem se acende mais.

E quando muda o mês, somos levados pro fundo de um depósito e esquecidos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Despedida

Tem tempos que não passo por aqui, mas não significa que deixei de escrever, só que não ando com muita coragem e ânimo pra postar...

Mas aqui vai um conto fresquinho pra vocês:

Se tivesse uma mesa entre os dois, sobre ela estaria uma caneca com um resto de café, esquecido ainda pela manhã, e um cinzeiro repleto de guimbas de cigarro mal apagadas. Marcas de garrafas de cervejas manchariam a madeira, mas não havia nada entre os dois, e ao mesmo tempo, havia tudo.
-Eu sempre te dei liberdade
-Mas eu queria que vc me cobrasse notícias do meu dia, que mostrasse que se importava
-Eu sempre mostrei que gostava de estar com você
-Mas nunca deixou que meus sonhos florescerem, por conta disso eu estou indo. Preciso de sonhos como você precisa de ar, preciso de doces ilusões pra se oporem aos meus dias cheios, preciso de fantasias com sabores ásperos e cheiros quentes, que sejam úmidas e completamente secas, preciso da eterna antítese de sonhar e estar acordada, e isso você não pode entender....
-Eu não estou entendendo o que você quer dizer...
-Tá vendo? É o principal motivo.
-Você disse que me amava
-E amei, não creio que ainda ame
-Você disse que seria pra sempre
-Eu acreditei que seria pra sempre, pelo visto estava enganada nisso também
-E como ficamos? Não quero te perder...
-Não se perde aquilo que não se tem
-Então foi tudo uma mentira?
-Foram mentiras e verdades, formando nossa realidade por um tempo.
-E de novo você fala difícil
-Porque eu nunca fui boa pra falar, sempre fui boa em sentir, e ficar quieta
-Mas eu sempre quis saber o que estava se passando com você.
-O que não quer dizer que você deveria saber, ou que seria capaz de entender o que se passa nessa minha cabeça
-Na minha cabeça também passam muitas coisas
-Eu nem por um minuto quero fingir que entendo, ou que quero entender. Eu estou partindo.
-Já fez as malas? Precisa de ajuda pra carregar?
-Vou deixá-las aqui, depois alguém virá buscar, levarei só o peso do meu coração e da minha alma; é pesado, mas eu agüento, me fiz forte. Não, não pense que eu estou dizendo que você é fraco; eu sabia exatamente como você era, e foi isso que fez com que eu ficasse com você. Só que agora não é mais suficiente pra mim.
-Não sei como você consegue ser tão fria, dizer isso tudo assim, como se não tivesse valor ou importância.
-Isso é novidade, porque em todo esse tempo juntos sempre coletei os títulos de emotiva, chorona, sofredora, musa de novela mexicana, é bom variar um pouco, é bom não deixar transparecer cada lágrima sangrenta de dentro do meu peito
-Como sempre, você mudando tudo o que eu digo a seu favor, como se você fosse a única ferida. Você está me deixando, porra!
-E você continua gritando comigo, como fez em cada discussão, eu simplesmente perdi a capacidade de me importar depois da sétima ou oitava vez que gritou comigo; decidi que não ia mais esperar você dormir depois de montar em mim pra me lavar e chorar em silêncio no banheiro.
-Sua puta!
-Puta não, ingênua, dediquei muito de mim a você, e agora vou me cuidar de mim. Desejo o melhor do mundo a você, e não me importa mais se você desejar o meu pior; a partir do momento que eu cruzar a soleira daquela porta, será um novo momento pra mim, o momento em que eu tomo as rédeas da minha vida e faço do mundo tudo aquilo que eu quiser que ele seja.

Silêncio por alguns minutos, e ela notou o desconforto dele com aquilo tudo, com uma situação nova com a qual ele não sabia lidar.

-Não precisa me acompanhar, eu sei o caminho, sempre soube, só nunca tive forças pra ir sozinha. Muito obrigado por tudo, desculpe por fazer você chorar.
-Não podemos nem mesmo ser amigos?
-Não
-Mas assim? Seco?
-Não podemos ser amigos porque nunca fomos amigos, e cada vez que você me olhasse, ia pensar que poderíamos voltar e ter alguma coisa, e cada vez que eu te olhasse eu ia lembrar cada um dos motivos que me trouxeram ao dia de hoje. Por isso não podemos ser amigos, por isso você segue seu rumo e eu sigo o meu, e se um dia nos encontrarmos de novo, você mais me olharia com ódio e ressentimento, e eu vou olhar pra você com uma vaga lembrança
E ela encheu o pulmão de ar e moveu os pequenos pés, um de cada vez, nas sapatilhas surradas em direção à porta. A maçaneta girou acompanhada por um gemido de dor das dobradiças. O mundo lá fora não era muito mais amplo do que um corredor e um lance de escada, que os pés dela percorreram devagar. Uma brisa leve vazava por debaixo da porta do condomínio e ela abriu um pequeno sorriso por estar do lado de fora. Estava um belo dia pra uma pizza.



Muito obrigado pelo apoio

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

03

Há muitos anos eu não entrava nesse lugar. A entrada parece completamente diferente, os letreiros... claro, a cidade cresceu, e bastante, parece certo que as coisas da cidade também cresçam... mas as pessoas são completamente diferentes, as roupas, os olhares... é tudo tão imediatista, tão repentino...


Eu pago o táxi e entro pela porta dupla; pago a entrada e já me encaminho ao bar... acho que velhos hábitos nunca morrem, apenas ficam adormecidos ali no canto, hibernando em silêncio... a maior parte das pessoas bebe essas cervejas estranhas, pra mim todas elas têm gosto de mijo, sempre tiveram, mas nos meus tempos de adolescente era legal sentar na esquina de noite com a galera e comprar das mais baratas, no posto do outro bloco e a gente bebia e falava merda a noite toda, só pra preocupar nossos pais.


As batidas da música me alcançam no mesmo instante em que o gelo do copo toca os meus lábios... não é de todo ruim, mas ainda assim, ambos diferentes... a bebida é aceitável, a música é tolerável. Não sei como agir nessas horas. O fluxo de pessoas vai em direção à uma escada pro segundo andar, e eu sigo, de forma quase involuntária. Lasers verdes pontuam o teto, numa constelação imaginária.


Claro-escuro-claro-escuro-claro-escuro-escuro-escuro-claro-escuro-claro-escuro-escuro-branco-escuro-claro-escuro-claro-escuro-buzina-escuro-claro-escuro-claro-escuro


Demora, mas meus olhos se acostumam com a variação luminosa. O espaço é maior do que parece, com algumas plataformas onde homens sem camisa dançam. Muitas mulheres dançando, despreocupadas, algumas se tocam, se beijam, alguns homens olham, não com desejo, como eu estou acostumado a ver. Alguns homens trocam olhares, outros, carícias. Bancos estrategicamente posicionados servem como repouso pros cansados de dançar, e como refúgio praqueles que buscam os braços do parceiro da noite.


Os corpos se movem sem ritmo, a batida parece contagiar. Uma ou outra vez eu percebo alguma letra, algum remix? Não é importante saber, não faz nenhuma diferença nesta noite, não faz diferença em noite nenhuma.


Escuro-claro-escuro-claro-escuro-globo espelhado-espelhos nas paredes


É, o meu reflexo. Os fios brancos parecem se destacar, por mais que ninguém mais perceba, não se pode mentir a idade pra nós mesmos, e olhando ao meu redor, nem de longe eu sou velho neste ambiente. Achei que seria diferente, que seria considerado um “tiozão”


Eu procuro um lugar mais agradável, onde eu possa ver tudo, onde eu não perturbe, e nem vá ser perturbado, de preferência perto do bar. Passando por trás da cabine do DJ dois lances de escada, um subindo e um descendo, grandes chances de serem outros ambientes, os quais eu ainda não quero conhecer.


A música começa a fazer efeito, primeiro você mexe os pés devagar, improvisando uma batida, o pescoço lentamente começa a se mover, e em seguida as mãos, segurando-se firmes, por vezes enfiadas nos bolsos, até que você se rende e começa a se mexer no mesmo compasso que as outras pessoas, cada uma no seu estilo, cada uma do seu jeito, um ritual coletivo, e ainda assim individualista, os olhos fechados, os lábios murmurando alguma prece estranha numa língua ininteligível.


É vibrante, contagiante, incompreensível, essa força vital que sobe da pista, o ritmo descontrolado das batidas e das pisadas, dos beijos e segredos trocados ao pé do ouvido, das mãos que procuram, dos corpos que se encontram, eu abro os olhos umas três vezes, motivado pelo barulho não-harmônico e pela impressão de proximidade, nas três vezes eu sorrio, algumas frases são trocadas, eu sorrio de novo enquanto balanço a cabeça, negativamente. Um aperto de mão, um tapinha nas costas e um agarrão na cintura, as três reações, em ordem, ao que eu respondo com uma nova negativa. Não é nada com eles, é comigo.


Incrível como nós só pensamos na vida a partir da possibilidade da perda. Três longos anos já se passaram, mas eu ainda lembro de cada detalhe, cada imagem, e a dor nunca diminui, sempre fica aquela marca indelével, você acorda, trabalha, conversa, passeia, dorme, e continua lá, do mesmo jeito, o máximo que acontece é que fingimos pra nós mesmos que superamos.


Escuro-claro-escuro-claro-escuro-lasers verdes-jogo de luzes-muda o DJ-claro-escuro-claro-escuro


A sirene toca de novo, o ritmo das músicas muda, muitas pessoas vão pra trás da cabine do DJ, em direção às escadas, e eu não tinha percebido o quão grande era o lugar, e o quanto de público ele atrai, visto que mesmo com muitas pessoas subindo, ainda passa a impressão de lotado, ou pode ser que realmente esteja lotado.


Hora de ir ao banheiro, apenas uma porta -banheiro coletivo- eu dou de ombros e vou em direção ao mictório. O cara do meu lado me dá uma olhada e passa a língua nos lábios. Sei bem o que ele quer, não é a minha. A mão dele me procura, a minha mão a interrompe, enquanto eu me dirijo pra lavar as mãos. Ecos do passado, um passado bem distante, mas não esquecido.


Eu tinha vinte e dois quando a gente se conheceu, e vinte e seis quando demos o primeiro beijo. Trinta quando resolvemos juntar as coisas e dividir um apartamento minúsculo. Com trinta e cinco o Destino achou engraçado jogar um carro contra o nosso. Setenta e cinco pontos, dois parafusos no braço, uma fratura exposta na perna, meses de fisioterapia, e uma vida de solteiro num apartamento de casal.


Tem dias em que é mais difícil lidar com a perda, tem dias que é menos difícil, mas nunca fica mais fácil.

A música que eu conhecia acabou e eu nem percebi, estava perdido demais nos meus próprios pensamentos de solidão.


Escuro-claro-escuro-claro-escuro-lasers verdes-escada - pé ante pé – subindo-escuro-claro-escuro-claro-escuro


O andar acima tem música pop, nada de remixes, as paredes não são espelhadas. A cabine do DJ é num canto, perto de janelões fechados, ar condicionado a toda. As pessoas parecem diferentes, os lasers deste andar são vermelhos, me dão a freqüente impressão de estar sob mira de alguma arma.


As luzes são mais fracas, os abraços mais apertados, os beijos mais longos e as carícias mais íntimas. O álcool também aumenta em concentração, pelo menos pra mim, e mais duas vezes eu ouço sussurros ao meu ouvido. O primeiro é encarado com surpresa, e uma recusa, o segundo conquista a minha mão na cintura, o abrir dos lábios, o contato com a língua dele, devagar, melodiosa, as coxas dele contra as minhas. Há muito tempo não tinha nada assim.


Sentamos no sofá, palavras doces são trocadas ao pé do ouvido, seguida de mordicadas de leve no queixo, no lóbulo da orelha, as mãos dele procuram os botões da minha blusa, a minha mão procura a barriga dele, pêlos aparados, nenhum tanquinho, felizmente. Parece que a febre do verão, em prol de um abdome de tanquinho ainda não alcançou a todos os lugares, felizmente. O cavanhaque dele no meu pescoço, a respiração dele eriçando os pêlos da minha nuca, mais beijos, mais mãos, menos botões.


Claro-escuro-claro-escuro-claro-escuro-escuro-escuro-claro-escuro-claro-escuro-escuro-branco-escuro-claro-escuro-claro-escuro-buzina-escuro-claro-escuro-claro-escuro


Ele segura minha mão, eu sei o que ele quer, eu vou até o guarda-volumes e deixo carteira, celular, chave de casa, e guardo o canhoto que me entregam no sapato; ele ainda me espera, sorrindo –é um sorriso?- Ele me pega pela mão e me beija. É, não tem nada na boca dele. Não seria a primeira vez que tentam me passar alguma coisa durante um beijo. Ele desce o primeiro lance de escadas, eu desço atrás, ele ri –desta vez foi uma risada!- e desce o segundo, eu respiro fundo e desço junto.


Escuro-escuro-escuro-mãos-calça-peito-escuro-mão-vultos-rostos-mãos-tropeços-corpos-pés-escuro-escuro-escuro-olhos fechados-gemidos-sussurros-escuro-escuro-cheiros-toques-contato-escuro


A mão dele segura a minha e me coloca contra a parede, meus olhos já começam a se acostumar, a distinguir os vultos se entregando totalmente, uns aos outros, ninguém pertence a ninguém nessa liberação sexual, nessa confusão de mãos e corpos. As mãos dele passam pela fivela do meu cinto e abrem meu zíper, e eu sinto os lábios dele descendo pelo meu peito enquanto ele parece se ajoelhar. O casal ao lado faz o mesmo, e o homem em pé, o loiro –parece loiro, será realmente?- inclina a cabeça pra mim, pedindo um beijo, que eu de bom grado concedo. Mãos me tocam, eu sinto os lábios da minha dupla em mim, minhas mãos procuram outra pessoa, numa confusão total, onde eu estou além dos limites do meu próprio corpo, onde os limites não são importantes, e a indefinição é a única coisa que nos une.


Escuro-escuro-escuro-lábios-pênis-peito-escuro-mão-nádegas-mamilos-mãos-borracha-costas-inclinar-escuro-escuro-escuro-olhos fechados-força-empurrar-gemidos-sussurros-escuro-escuro-beijos-mordidas-reentradas-escuro-escuro


Eu suo, eu sinto o suor de outros em mim, eu sinto os quadris da minha dupla me pressionando contra a parede, as mãos dos outros sobre mim, me tocando, me explorando, e com um gemido meu, um beijo da minha dupla, a borracha é jogada no chão, ele se veste e sobe, enquanto eu continuo, sem saber os meus próprios limites.


Outras mãos, outros lábios sobre mim, em todos os lados, por todos os ângulos, eu sinto as pessoas às minhas costas, o casal do meu lado se separou, o loiro à minha frente, apoiado em algo, reclinado pra frente, me convidando pra possuí-lo, enquanto o parceiro dele, cujo rosto eu sequer vi, pede pra que eu me incline. Pele na pele, sem borracha, meu corpo involuntariamente reclama, ao mesmo tempo em que o loiro reclama da invasão, a pele, o cheiro, o suor, o contato, os movimentos, a escuridão, somos todos um aqui, sem limites do ser ou do existir.


Escuro-escuro-escuro-lábios-pênis-peito-escuro-mão-nádegas-mamilos-mãos-borracha-costas-inclinar-escuro-escuro-escuro-olhos fechados-força-empurrar-gemidos-sussurros-escuro-escuro-beijos-mordidas-reentradas-escuro-escuro-gozo


Eu termino de me vestir enquanto mãos alienígenas ainda percorrem o meu corpo, estou cansado, dolorido, sujo até, tenho essa certeza, mas nada disso é importante, nada mais importa.


Eu subo as escadas devagar, e um mundo inteiro de claridade se revela pra mim; não sei quanto tempo eu fiquei naquela sala repleta de escuridão, mas sei que eu quero ir pra casa. Eu vou ao guarda-volumes e pego o que é meu, e sigo em direção ao caixa, pago minha comanda e sinalizo pro táxi. Dou o endereço. Um olhar reprovador, mas eu já encarei tantos outros, muito piores na verdade. Dos meus pais, dos meus ‘amigos’, da minha ‘namorada’, não vai ser esse taxista que vai me intimidar.


E no banco de trás do carro, enquanto o mundo se ilumina, eu penso em tudo o que já foi tirado de mim, em todas as juras e promessas e sonhos de um dia viajar pra fora do país, ou adotar uma criança, ou mesmo sossegar um tempo no Nordeste, e como tudo isso foi arrancado de mim por um motorista voltando de uma balada, exatamente como eu faço agora.


É uma sensação de vazio tão grande, tão opressiva, mas eu já me condicionei a não chorar, eu sei que desde aquele momento, há três anos, meu destino era permanecer sozinho. Ele foi o único que entendeu e aceitou a minha condição, e estar com ele era mágico, e único, e ninguém tem culpa por isso, e ao mesmo tempo todo mundo tem culpa da minha condição. Irresponsabilidade minha, em tempos de juventude, loucuras de uma noite que a gente vem a se arrepender depois.


Eu não me arrependo mais; eu sou amargo, sou ressentido, sou hipócrita, eu sorrio quando vejo que não tem borracha. Do jeito que me tiraram o sentido da vida, eu condeno cada um deles a uma existência tão torturada quanto a minha. Sou torpe, sou vil, sou tão humano quanto qualquer um deles. Não escolhi minha condição, mas eu não recuso, nem rejeito ser como sou. E é assim, um dia depois do outro, até que uma infecção me leve.

Eu chego em casa, pago a corrida e subo, esperando por mim, dois gatos, e um coquetel, que tem sido meu fiel companheiro na imensidão desse apartamento minúsculo onde eu projetei minhas esperanças.


Esperanças como um castelo de cartas, que perdeu sua base três anos atrás, e agora, eu não ligo, tudo pode ir pra casa do caralho, pq eu sei exatamente que a doença e a morte me esperam.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

02

A torradeira apita e ejeta duas fatias de pão perfeitamente douradas, sem casca. Os ovos mexidos no canto direito do prato, as três tiras de bacon alinhadas no canto esquerdo. Guardanapo de algodão branco, impecável, cobrindo os talheres prateados. O copo de suco de laranja, apenas duas colheres pequenas de açúcar, coado e sem espuma, do jeito que ele gosta.


Eu ouço os passos dele na escada e me apresso em colocar o jornal em posição, minhas mãos no avental, um sorriso no rosto enquanto ele desce, já arrumado, o cheiro de loção pós-barba no ar. Ele pega o jornal sobre a mesa e o folheia enquanto come apressadamente. Eu separo o paletó para ele enquanto ele escova os dentes, e ele deixa "dinheiro" sobre a mesa, ao lado do prato, como se eu fosse uma garçonete qualquer, e sai, balançando as chaves do carro, mas não sem antes esperar que eu abra a porta.


Eu observo da varanda até que o carro cruze a esquina, assim como as outras esposas o fazem. Todas nós, com nossos aventais impecáveis, nossos cabelos presos e uma bela aliança que brilha ao sol que acabou de nascer, cada uma com seu orgulho pela bela casa, os belos jardins que cultivamos, sem nenhuma erva daninha. Nossos arbustos perfeitamente cortados, simétricos.


Mais meia hora exatamente até que a doméstica chegue nesta manhã de segunda-feira; usamos apenas o termo doméstica, não mais empregada, como nos tempos da minha avó. É tarefa delas lavar os banheiros, encerar os pisos, tarefas indignas de uma mulher casada. Porque nenhuma delas tem marido, pobres coitadas; a maior parte tem um amante, ou é “amigada” com alguém, longe da vida estável que o casamento proporciona. Elas chegam num ônibus verde, cada qual pra uma casa, rapidamente, pela porta dos fundos.


A lista de tarefas está pronta sobre o balcão, eu confiro mentalmente as necessidades da casa e comparo com minha lista, tudo confere, pego a cesta de vime, tão bem trançada e detalhada, uniforme entre nós que iremos ao mercado, e me dirijo à porta, parando apenas para pegar o chapéu e as luvas. Não é de bom gosto que senhoras casadas apresentem-se de qualquer maneira na frente dos outros, foi a primeira lição de minha mãe quanto à minha vida de casada.


Na soleira da porta vejo minhas vizinhas se preparando para a mesma empreitada. Um aceno de cabeça apenas por educação, pra mostrar que reconheço a existência dessas outras mulheres cuja felicidade se rivaliza à minha. Elas respondem, com um sorriso, e meus pés se movem, um após o outro ao longo da calçada, em direção aos mercados. É um lindo dia de sol, mas sem estar abafado.


Nossa pacífica vizinhança é como uma ilha de tranqüilidade, é só andar alguns blocos para que o cenário mude; já é possível ver os carros da guarda, controlando a entrada e saída. Eles cumprimentam a todos nós do mesmo modo, formal e impessoal, nada seria melhor.


Aqui as casas são menores; as pessoas, piores. Naquela casa de esquina mora Tânia e sua amante. Quão repulsivo me é o pensamento de uma mulher entregando-se a outra, uma afronta aos olhos de Deus e dos homens. Qual a lógica ou razão disso? Onde está o sagrado fim reprodutivo que Deus nos confiou? Mulheres baixas, repugnantes... deveriam ser mandadas pra longe, junto com os sem-teto, os mendigos... mas somos obrigadas a conviver com esse câncer entre nós.


No outro bloco fica uma lavanderia. Todas as esposas sabem realmente o que acontece dentro daquelas paredes; apenas homens são vistos entrando, geralmente no período da tarde e da noite; aquelas asiáticas, com seus olhos puxados e seus feitiços do oriente, seus risos miúdos e pele amarelada, macilenta, nenhuma delas sabe o prazer de se dedicar a apenas um homem, que te satisfaz em todos os aspectos. Putas, piranhas, degeneradas! Posando de trabalhadoras honestas! Uma delas acabou de sair pra pendurar a placa de “estamos abertas”. Claro que estão! Mulheres repulsivas! Envergonha-me ter que dizer que são mulheres... são fêmeas, como os animais! Ela acena com a cabeça, eu e algumas outras viramos o rosto; elas têm que saber que não são parte, e que nunca serão.


Finalmente o mercado! Mas ainda não o nosso. As primeiras lojas são pras largadas, viúvas, todas as infelizes inferiores. Suas roupas justas, maquiagem nos rostos, usando o exterior pra seduzir e disfarçar seus interiores de serpentes; criaturas falsas, enganadoras! É sempre tão repulsivo ter que andar por entre elas, como água e óleo, não nos misturamos, ficamos sempre em evidência quando confrontadas com elas, seus lábios vermelhos, olhos pintados de preto, ainda que seja de manhã, as bijuterias de plástico nas orelhas, no pescoço, os anéis de metal vagabundo...


Quase com uma pressa que não me é característica eu entro na loja, entrego o papel com as anotações ao dono, um homenzinho gordo e ensebado, quase careca, com seus quarenta e poucos anos. Ele grita pro ajudante, um mocinho com seus dezoito, ou quase isso, cabelos pretos, uma rede sobre eles, já que está mexendo com comida; ele pede a minha cesta, que eu entrego, e ele coloca rapidamente os produtos nela. Hora do "dinheiro"; eu passo meu cartão na máquina. Há muito tempo não usamos mais dinheiro de papel; a transação é consumada, e eu volto pra casa enquanto as outras esposas são atendidas.


O caminho de volta é sempre mais apressado, o sol já se levantou por completo, pequenas ondas de vapor sobem do asfalto, e nós, esposas, andamos apressadas pelas calçadas, acenando delicadamente umas para as outras com quem ainda não falamos. O trajeto é intenso, e revoltante, as largadas, as viúvas, as putas, as pervertidas, todas estão ali, olhando, uma mistura de inveja e ódio estampada nos seus olhares.


Fecho a porta de casa, afoita, deixo a cesta sobre o balcão da cozinha; a doméstica está ocupada. Rapidamente eu subo os lances de escada e me tranco na segurança do meu quarto. Abandono o chapéu e as luvas sobre a cama de casal, com os lençóis brancos, o dossel de renda... nunca me faltou nada aqui, mesmo nas noites em que meu esposo mal me toca, mas é a felicidade que eu posso querer, a respiração dele no meu pescoço, pequenos olhares de cumplicidade à hora da refeição, quem se importa com a “felicidade” que essas mulheres da rua têm?


Um a um, os botões saem de suas casas, e o vestido é abandonado no chão do quarto, o som da água gorgoleja em meus ouvidos, preenchendo a banheira, primeiro um pé, depois o outro, ajoelhando-me devagar na água quente, o cabelo preso em um coque rapidamente se desfaz, caindo pelas costas, grudando na pele.


Eu estico as pernas, olho pra água, meus seios não são mais tão bonitos como quando me casei, a pele continua pálida e suave, mas sinto como se alguma chama tivesse se apagado. De forma inconsciente, minha mão desce até a minha cintura, e eu percebo que a única coisa que me envolve desta forma é a minha roupa. Há muito meu esposo não me toca desta forma. Minhas coxas continuam torneadas, e entre minhas pernas, continuo a mesma, com quase tanta experiência como quando ainda era uma virgem.


As mãos se movem mais uma vez. A porta está trancada, ninguém precisa saber, ninguém vai me condenar pelo meu prazer solitário, desde que nenhum som escape deste cômodo; é meu maior segredo. Aqui eu sou Tânia, se contorcendo de prazer enquanto as mãos de sua amante exploram seu corpo, sou cada uma daquelas putas da lavanderia, com línguas explorando cada cavidade, me colocando em poses vergonhosas pra cada um de meus machos, e o dono da venda, e seu ajudante, os dois me tomando por suas, ao mesmo tempo, segurando-me pelas ancas, puxando meus cabelos, mordendo meus seios até deixarem marcas, e tudo isso aos olhos do meu esposo.


Mas ninguém precisa saber, e quando eu abrir o ralo, essas fantasias proibidas também irão escorrer, até o próximo banho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Conto 01

A escuridão. É quase palpável pra mim em noites como essa. Sempre foi.


Dói.


Eu sinto cada movimento dele; a respiração dele ecoa nas paredes desse quarto morto.


Eu abro os olhos devagar, as luzes estão apagadas, a janela e a cortina fechadas também, um mínimo de luz que me permite distinguir a porta que leva ao banheiro, sem maçaneta, num canto do quarto, um baú fechado, com algumas peças de roupa.


Faz calor, e eu sinto o suor na minha testa, e o arfar continua, a dor continua, assim eu sei que minha existência continua. Tem sido assim por muito tempo... desde que consigo lembrar.


O barulho se intensifica, a dor aumenta, o movimento fica mais rápido e de repente tudo pára. E então mais barulho... o tecido se movimentando contra a pele, os botões contra os dedos.


Ele fala alguma coisa. Um insulto como sempre, e eu tapo os ouvidos e finjo que não ouvi; e sinto o braço dele me puxando pra fora, me jogando no chão. O soluçar de medo já morreu há muito tempo, quaisquer reações já me foram arrancadas. O som dos meus joelhos contra o piso do quarto, e eu sei o que ele quer, ele me obriga a pedir perdão pelo que eu fiz; é minha culpa, sempre é minha culpa, apesar de ele sempre voltar.


Eu sempre rezo pedindo pra que ele não volte, mas essas preces nunca são atendidas. Não rezo apenas quando ele manda. Rezo ao acordar, ao comer, a cada instante tranqüilo que tenho; se é que pode ser chamado de tranqüilo.


E me dizem pra agradecer a comida, as roupas, tudo o que recebo, enquanto fingem não saber o que se passa todas as noites no quarto pequeno, no final do corredor.


Nos primeiros dias eu chorava, e gritava, até que a mão dele apertou meu pescoço, bateu e bateu mais no meu rosto e eu não consigo me lembrar de mais nada a não ser a dor; Desde então ele me manda ficar em silêncio; afunda minha cabeça no travesseiro. É sempre assim, nessa posição humilhante que ele vem sobre mim, às vezes a mão solta a minha cabeça, porque fica difícil de eu respirar, mas nunca vem o toque, nunca é suave, ou delicado.


A dor no meu rosto faz com que eu lembre que ele ainda está presente, ele ainda quer saber que meus lábios se mexem numa prece silenciosa. Quase de imediato eu sinto o rosto ferver, inchado, foi um tapa? Deve ter sido, não seria o primeiro. Eu apenas cumpro meu papel, em silêncio; e ele vai embora. Um raio de luz da lâmpada do corredor se atreve a entrar no quarto, mas ele logo fecha a porta e me mantém no escuro, esse terror que ainda me assombra a cada dia, que permeia meus pesadelos.


Eu pego as peças de roupa que me foram tiradas e jogadas no chão. Lenta e dolorosamente eu as pego em meus braços e vou na direção da porta sem maçaneta. Já posso ouvir o barulho da água correndo. Ele quer que eu me lave.


Não há janelas no banheiro, nem espelhos, nem nada afiado ou pontiagudo. A banheira se enche lentamente com a água gelada, e num fio ela some. Apenas o bastante para que eu me limpe, ele já disse em outras vezes.

Um pé, depois o outro, ajoelhando devagar, e com as mãos em concha despejando a água sobre o ombro, esfregando devagar. Ainda me faltam forças. Coloco a mão com água gelada sobre o rosto, a sensação de formigar se intensifica. Eu fecho os olhos... a água parece me encher, mesmo tão pouca.


Eu me levanto, me seco com uma toalha que não consigo identificar a cor, me visto novamente e vou até a cama. Dói quando eu apóio os pés. Sempre dói, e nunca vai mudar, sempre me enoja, faz com que eu sinta minha pele suja.


Eu puxo o lençol fino e me enfio debaixo dele. A cama ainda está quente, cheira a suor, a sexo, a pecado. Eu fecho os olhos pra tentar esquecer, mas enquanto estou aqui, só essas memórias me vêm. Essas memórias e culpa, por algo que eu nem mesmo sei o que é, só sei que carrego essa culpa, e que não há forma de escapar dela.


As horas passam, ou assim eu imagino enquanto rolo sem conseguir dormir nesta cama. Tenho que ficar em silêncio ou ele pode voltar, e eu não agüento... não duas vezes na mesma noite... ele já tentou, foi quando ele quebrou meu braço me segurando forte, e urrava, se eu pudesse ver, diria que estava rindo da minha dor.


Pequenos raios de sol começam a invadir a escuridão do quarto, as coisas começam a ganhar cores; tudo é muito sóbrio... bege, marrom, branco... a porta abre e eu sei que é hora de fingir que estou acordando, e ele está lá, parado, com ela por detrás dele. Não é culpa dela, eu sei. E a voz dele cai sobre mim, falsa, hipócrita, cínica.


“Filho, hora de ir pra escola”