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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Distância

   Três pontos. E eis que é assim que termina; um final apropriado, com reticências no lugar de um ponto final, desejoso de uma continuação, ansioso por uma sequência, que todos sabemos que não virá.
   Todas as coisas devem ter seu fim, lembro-me de ter lido isso várias vezes, mas minha vida sempre foi tão cheia de finais, por vezes penso que tive mais términos do que princípios, se é que isso pode acontecer. O fato é que, não sei o motivo, mas os términos são uma constante, uma companhia frequente na minha existência torturada, que tende ao drama e aos períodos longos se não sou interrompido...
   Mas do quê é composto o fim? Quase nunca por duas vontades, quase sempre por uma imposição, às vezes pelo ego, outras vezes por abnegação; mas quase sempre pela distância que separa dois (ou mais) corações. Divergência de interesses, conflitos de opinião, ou ainda o "não é você, sou eu", que escapa por lábios murchos enquanto olhos maquiavélicos encaram o chão"
   Eu achei que era capaz de tolerar a distância entre os nossos corações, mas não esperava ter seu coração indo cava vez mais distante, numa direção oposta à minha. Chega uma hora em que é necessário saber parar, conseguir ceder, abandonar o barco antes do naufrágio, mas decididamente eu nunca sei quando é essa hora, apesar de todas as falhas e fracassos e términos pelos quais já passei, seja como ator ou espectador.
   Nada sei sobre a sua busca, ainda que eu acreditasse ser capaz de decifrar cada uma das linhas do seu rosto. Já não reconheço mais a temperatura da sua mão quando ela encostava na minha; e quão poucas eram essas vezes! Seus olhos não eram de cigana oblíqua, tais como os de Capitu, mas de uns tempos pra cá perderam o brilho, ou talvez eu tenha desenvolvido catarata sem saber.
   "Terminar não significa que o amor acabou" você disse, mas eu não acredito em tais coisas. Términos são términos, pessoas são pessoas, e desde que o mundo é mundo, separações fazem parte da vida, mesmo que a gente não queira acreditar nelas. Na verdade, a gente não acredita, a gente tem que aprender a lidar, porque não tem volta.
   "Ahn, mas se tudo der certo, podemos voltar". Não podemos. Não somos mais as pessoas que éramos antes e não acho que consiga cobrir essa nova distância que separa o seu coração do meu, porque agora, acima de tudo, acrescentei a distância do meu cérebro ao meu coração.
   Se pode servir de consolo (a mim, óbvio), foram dias felizes. Dias com muitos sorrisos, algumas decepções, como sempre deve ter na vida, mas dias de sol e chuva repletos de tudo o que eu podia esperar. Plenos, se é que eu posso usar essa palavra. Sem arrependimentos, sem mágoas, sem certezas absolutas.
   Hoje mais cedo um dente de leão voou pela janela da sala, dançou pelo ar um pouco abaixo da lâmpada e saiu, tão enigmático, frágil e etéreo como tinha entrado. Será que era um presságio? Um aviso? Um dente de leão intruso pra me mandar uma mensagem paranóica e maluca? Não, era apenas um dente de leão me ensinando o que somos na vida um do outro; e não apenas você  eu, mas todos. Nós chegamos sem pedir licença, ficamos algum tempo, às vezes pra sempre, ás vezes poucos instantes, e saímos, mas deixamos a lembrança de que estivemos ali, de alguma forma.
   E é assim que eu vou, nessas reticências disfarçadas de adeus...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Fogos de Artifício

   Ainda lembro do nosso primeiro encontro; da forma como eu fiquei sem ação quando você me pediu um beijo, e me agarrou quando ninguém estava olhando. Não é que eu não quisesse, mas eu não esperava que você tomasse a iniciativa, ainda mais em público, sendo tão contido como você é. Foi divertido; eu senti seu coração palpitar por sob a blusa, mas pra ser sincero achei o beijo meio seco e sem-graça. Que bom que você corrigiu isso depois!
   O segundo encontro foi menos exótico, mais tradicional. Você se comportou direito, e eu quem fiz travessuras daquela vez. Você lembra?
   De repente, paramos de contar os encontros, de tão frequentes que eles se tornaram. Alguns foram ótimos; outros nem tanto; mas quase todos deixaram gostinho de quero mais, então a gente foi levando, e levando, até que decidimos ficar juntos.
   De lá pra cá, correram semanas, meses. Algumas brigas, porque não tinha como ficar tudo maravilhoso, mas a gente sempre conseguiu se entender, o que sinceramente, é novidade pra mim; e acredito que seja novidade pra você também.
   E mesmo depois de tanto tempo eu fico sem palavras de ver o brilho nos seus olhos quando estamos juntos, e imaginar a festa que acontece no meu coração quando a sua mão segura a minha: confetes, serpentina, fogos.

E que seja apenas o começo de um longo período juntos, e que se renove sempre.

Escolhas

   Eu queria que você entendesse - e aceitasse- que as coisas entre nós nunca vão mudar. Você sempre será parte de mim. Uma parte importante, daquelas que a gente nunca pode nem consegue se livrar. Uma parte dolorida, é verdade, carregada de lembranças desagradáveis e que fazem o coração doer; mas também uma parte que me deu muitos sorrisos, e ainda dá alguns, quando lembro das coisas boas que tivemos.
   O afastamento era inevitável. E acredito que foi tão bom pra você quanto foi pra mim. Precisávamos colocar as coisas no lugar. A cabeça no lugar, por assim dizer. Lágrimas rolaram, travesseiros foram abraçados, insultos foram ditos, seguidos de arrependimento às vezes. Poucas vezes na verdade. É, sendo honesto, não me arrependo. Gostaria de dizer que sim às vezes, que estava errado, mas lá no fundo sei que não estou.
   E os dias abafados de verão passam devagar enquanto eu olho o horizonte infinito, esperando por algo que não vem.
   Que a verdade seja dita, eu tenho evitado escolhas difíceis; tenho me mantido afastado do ponto sem retorno, justamente por ser o que é: sem retorno. Gosto de pensar que, caso algo de errado aconteça, eu tenho um porto seguro pra voltar, o que é muito raro nos tempos em que vivemos; cada vez mais rápido, cada vez mais intenso, de forma que tudo o que conseguimos discernir em nossa frente são borrões multicoloridos, às vezes vindo ao nosso encontro.
   Mas nunca é assim, e eu tive que aprender da pior forma, experimentando, sentindo cada cicatriz se formar na minha alma enquanto caminhos eram fechados, enquanto estradas imaginárias se desfaziam e pessoas davam adeus, sem mesmo saber que estavam se despedindo. Cada porta aberta significava também uma fechada, e não adiantava perder tempo pensando nisso.
   Os dias e meses passam mais rápido agora. Parece que faz tanto tempo que nos despedimos que eu nem consigo mais lembrar com exatidão, e nem foi tanto tempo assim; mas a mágoa e a vida me endureceram. Acho que nos endureceram né? E eu continuo com esse meu hábito de escrever sobre o nada, para ninguém. Escrevo porque acho melhor que dizer. Faz com que eu tire certas coisas do peito e deposite num cofre ao qual poucos têm acesso.
   Eu queria dizer que escolhi o novo. Escolhi a mudança. E isso significa abandonar tudo o que você representou pra mim. Desfaço os laços, quebro os vínculos, apago as mensagens e rasgo as cartas.
Sua aliança eu vou mandar pelo correio. Não acho justo continuar com ela quando é de família.
   Ainda gosto muito da sua mãe, apesar de provavelmente achar que eu não presto; e não posso culpá-la; se um dia achar oportunidade pra isso, diga o quanto gostava de conversar com ela.
   Por último, e acho que mais importante, deixo a chave do apartamento com você. Decidi mudar de ares, mudei de apartamento, mudei de cidade. Mudei de cabelo também, não que isso importe.
   De qualquer forma, junto com sua aliança vai a chave. Essa é a última porta que estou fechando porque dentro de mim, sei que de algum jeito as coisas agora vão dar certo. As próximas escolhas serão mais fáceis; eu só precisava dar o primeiro passo fora da sua vida.

PS: Não se culpe por nada, o aborto foi espontâneo. Eu estava zangada e quis que você se sentisse culpado. Pode me xingar por isso.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Perdas...

Tenho ciúmes porque já me acostumei a perder. De pés de meia a amigos. De brincos a namorados; as perdas apenas se acumulam e se sucedem, uma depois da outra.

Começou muito cedo, bem antes do que eu possa lembrar de forma clara, mas eventualmente, as pessoas acabavam se afastando de mim sem que eu tivesse consciência de que elas estavam se afastando. Começava em um dia, depois uma semana sem ver, um mês, e quando me dava conta, não dava mais pra nos encontrarmos. Trocávamos mensagens frias pelo facebook e pelo MSN, na época que ainda havia o MSN.

Comecei a trabalhar e obtive meu próprio espaço. Minha mãe no começo não gostou; ligava várias vezes ao dia pra saber como eu estava. Acabou entrando num curso de dança pra terceira idade, depois num clube do livro e em outro, e outro; e agora só tem tempo pra mim no dia das mães e no meu aniversário. No aniversário dela sai com as amigas. Outro dia vi no facebook uma foto dela de maiô com as amigas na praia de Ipanema, ou Copacabana, não sei diferenciar as duas. É bom que ela esteja se divertindo.

Trabalho no meu cubículo. Computador ligado, tablet sobre a escrivaninha e dedos rápidos no teclado, ou sobre a tela. Meu trabalho tem que ser feito rápido, de forma constante; e acho que sou boa nele. Às vezes levanto fora do intervalo pra ir ao banheiro. Quanto à sede, aprendi um truque: garrafinha térmica de café e água sempre disponíveis. Pro almoço, sempre como naquele restaurante com placa "comida à kilo, bufê self-service" da outra rua. Os atendentes até já me conhecem, e tem sempre a minha mesa, no cantinho, com a televisão à vista. Não que eu assista, mas gosto de ouvir as notícias.

Nos finais de semana combino um barzinho com uma ou outra amiga; às vezes um amigo, mas quase nunca vou. Sempre acontece algo. Uma briga, um término, outro programa mais interessante, e eu recebo mensagens no whatsapp e por sms com pedidos de desculpas. Tenho ciúmes desses outros programas também, mas tem nada que eu possa fazer quanto a isso.

Fico então em casa, com filmes velhos no sofá. Perdi as contas de quantas vezes assisti Casablanca e Moulin Rouge. Gosto dessas coisas clichê, porque sei que nunca acontecem na vida. E se por ventura viessem a acontecer, não seria comigo.Já ouvi que sou uma pessoa desiludida, ou deprimida, mas todas as pessoas o são, em algum nível.

Às vezes bate a frustração. Tudo o que eu tive e considerei importante, perdi. Não quer dizer que deixei de gostar. Não quer dizer que deixei de querer e sentir falta. Lá no fundo, todas essas coisas sempre foram e sempre serão parte de mim. Todas essas pessoas seguiram comigo até o fim dos meus dias. Demorou muito pra perceber isso; que mesmo quando estamos sozinhos, temos montes de gente conosco.

Mas não muda o fato de ficar com raiva e apertar firme as mãos quando perco mais alguém. Não me impede de chorar enquanto abraço o travesseiro enquanto penso que seria melhor companhia, seria melhor amante, seria uma melhor pessoa do que quem está com você, sejá lá quem você for.

Tenho ciúmes de tudo aquilo que passou pela minha vida. Por mais breve que tenha sido. Tenho ciúmes do "viver" por si só, oposto ao existir que tenho levado, desde que cada pedaço importante que eu tinha foi tomado de mim.

Mas não o ciúme, ele sempre estará comigo me lembrando de cada coisa, cada lugar, cada pessoa.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Descoberta

Ando muito cansado de tudo; a maior parte das coisas me aborrece.
Não tenho muita vontade de trabalhar, ou de terminar as coisas da faculdade. O curso em si tem se mostrado um saco; e nada parecido com o que era no começo, quando depois de um vestibular sofrido eu consegui a vaga.

Minha vida anda meio parada. Tenho ido a algumas festas, conhecido algumas pessoas interessantes, mas nenhuma que realmente chame a minha atenção. Claro, servem pra uns beijos na boca, uns amassos aqui, outros ali, alguns encontros, quem sabe, mas nada duradouro, nada que ultrapasse algumas saídas.

Mesmo pra comer eu tenho estado bem ranzinza, procurando lugares novos e sabores exóticos, porque nada me satisfaz. Ou talvez, eu não esteja satisfeito comigo mesmo.

Mas é claro, os pensamentos continuam os mesmos, e as lembranças continuam rondando cada pedaço do meu cérebro. Cada vez que fecho os olhos é pra relembrar algo que vivemos, algo que passamos, e eu sei que não devia ser assim, só não consigo imaginar como pode ser diferente.

Quando eu fico assim, gosto de comprar. Roupas, acessórios, gosto de comprar, apenas comprar. Não me importo com o quê. Carrego as bolsas, parcelo em quantas vezes puder e acredito que sou feliz por alguns instantes, porque aparentemente, nada consegue preencher esse vazio que toma conta de mim quando a solidão se aproxima.

As coisas não têm sido fáceis, já que não consigo engrenar nenhum relacionamento; e sempre me acostumei a ter alguém do meu lado. Fico então pulando de relação em relação, sem me comprometer de verdade, porque sei que não vai fazer diferença pra mim.

E faço pior, acabo me anulando, deixando de ir a lugares que gosto, de falar com amigos que estimo; deixo a órbita do meu mundo se alterar por causa de quem está comigo, como se fosse um satélite, como se fosse barro sendo moldado. Provavelmente por isso perdem o interesse tão rápido por mim. Qual criança fica muito tempo com a massa de modelar?

Hoje estou eu, entregue à solidão, de frente a esse espelho no quarto, olhando meu reflexo e sendo olhado por ele, que parece me julgar, enquanto avalio as roupas que comprei.

De repente, não me reconheço mais ali. Não sou aquela pessoa. Aquele atrás do vidro é quem eu era, não quem eu me tornei. O "eu" confiante, que tinha orgulho do que fazia, que não se deixava anular, que brigava e xingava e esperneava. Era um "eu" desmedido, intenso e capaz de fazer o que quisesse. Um "eu" de quem o eu de agora tem medo.

Essa figura no espelho parece sorrir. Quero crer que houve alguma mudança, mas não consigo conter um grito de terror ao ver sua mão saindo pelo vidro e agarrando meu braço, me puxando pra dentro do espelho. Tento resistir, mas não sei de onde esse "eu" espectral tira forças. Tento me agarrar a tudo que tenho de sólido, e percebo que minhas certezas se tornaram inseguranças, desmoronando sobre mim.

Quando abro os olhos e dou por mim, estou ali, dentro do espelho, batendo contra o vidro, olhando praquele outro "eu" que ri. Ele é forte, ele é confiante, ele sabe do que é capaz, ele é tudo o que eu abri mão pra fingir que tinha uma relação com você, ele é tudo o que eu abdiquei pela fantasia, e tranquei querendo continuar fingindo.

Ele é meu amor próprio, que surgiu, que se redescobriu e se reinventou, mais forte, quebrando todos os grilhões com os quais eu o aprisionei; surgindo forte e tomando conta de mim, reescrevendo tudo o que sou, reconfigurando tudo o que eu acreditava querer.

Esse "eu" que me olha parece não me entender, mas sei que me entende. Sou eu quem falho em entender sua figura, sua importância. Fui eu quem decidi abrir mão de tudo pra viver o nada; e essa descoberta, essa revelação acaba por detsruir o pouco de forças que eu ainda tenho.

Não há como sair do espelho. Eu o criei pra esconder o que acreditava serem minhas fraquezas, quando na verdade eram meus alicerces; e eles esperaram por tanto tempo, cresceram por tanto tempo ali, sem intervenção, que tornaram-se fortes o bastante para tomarem conta de mim.

Resta a mim esperar em silêncio, fazendo o mesmo. Esperar que meu amor-próprio se descuide, esqueça de mim, a insegurança; deixe-me aqui, na escuridão, crescendo, me alimentando de mim mesmo enquanto junto forças na dúvida, esperando por um dia tomar conta de tudo novamente.

E eu percebo que ele fecha a porta do armário, mas deixa uma fresta. É quando admito minha derrota. Ele sabe que não é auto-suficiente. Sabe que apenas amor próprio não resolve todos os problemas do mundo; que é necessário um pouco de dúvida, um pouco de insegurança, um pouco de temor para que tudo siga em frente. E eu que pensava que dúvida e amor próprio não podiam caminhar juntos. Nunca.

Essa fresta que ele deixa, esse espaço pra me manifestar, é a garantia de que ficarei aqui por muito tempo. Que agora com a redescoberta do amor próprio, o "eu" que também é "ele" seja apenas "alguém", disposto a ser feliz.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Príncipe

Quando eu era pequeno, diziam que todas as meninas esperavam por um príncipe encantado; que chegaria num cavalo branco e as levaria pra longe, a salvariam dos problemas e eles viveriam felizes para sempre.

Essa história sempre me incomodou. Nem todas as meninas queriam ser salvas; nem todos os meninos queriam salvar meninas. Eu era um claro exemplo disso.

No fundo, talvez eu quisesse um príncipe pra mim; e assim que cresci, decidi por procurá-lo nos mais diversos lugares.

Conheci muita gente. De todas as cores, credos, costumes, hábitos, frequências cardíacas; mas nenhum me parecia o bastante. Um era muito novo, outro muito velho; um morava longe e outro morava muito perto. Um queria minha atenção a toda hora, o outro eu tinha que ficar procurando.

Alguns despertaram meu interesse, mas não foram capazes de fazer esse interesse durar mais que alguns meses. Às vezes algumas semanas. Nos piores casos, uns dias.

E em não encontrar um príncipe, eu fui levando a vida. Estudei, trabalhei. Conquistei meu próprio mundo, mas ainda sentia falta de alguém comigo. Precisava daquela companhia tão especial que tanto tinha sido dita.

Procurei em outros lugares, onde todos os gatos eram pardos e exalavam álcool de seus hálitos; às vezes misturado com nicotina. Às vezes com saliva de outros homens; ou outras coisas.

Procurei pelos museus, exposições de arte; procurei pelos shoppings.

Viajei em busca, mas encontrei apenas uma cama vazia, na qual eu me deitava à noite e esperava o sono chegar; E às vezes, só às vezes, ele vinha acompanhado de lágrimas amargas.

Com o passar dos anos e o aumento dos fios brancos, as minhas mãos marcadas ganharam veias mais salientes, e a disposição pra fazer as coisas foi diminuindo. Era chegada a hora de desistir da procura. Não encontraria o tal príncipe. Se não o encontrei jovem, não iria encontrá-lo na velhice.

Foi quando percebi que, por todo o tempo estive procurando o invisível; lutando contra moinhos de vento. Se tivesse dado uma chance a algum daqueles homens, não teria um príncipe ao meu lado, mas teria a companhia que sempre procurei.

Enquanto pensava que nenhum deles era suficiente pra mim, fui me transformando em alguém que não era suficiente, não era merecedor de nenhum deles.

Por isso hoje, rasgo as páginas desses contos de fadas, amargo, rancoroso. Transformei-me em bruxa má sem nem saber como; e não tem volta. É nisso que penso enquanto estas mãos calejadas e idosas despedaçam as páginas das histórias infantis em que ousei acreditar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Deslocado



Era uma vez um pássaro.
Quantas e quantas histórias começam com esse "era uma vez?" Esta não será exceção.

Era um pássaro um tanto quanto incomum, por sua própria natureza. Irritadiço, inquieto, incapaz de parar no mesmo lugar. Estava sempre batendo asas, procurando algo que sequer sabia o que era. Apenas batia as asas e deixava-se levar.

Às vezes ele procurava por outros pássaros; ficavam algum tempo juntos, mas logo em seguida os outros pássaros partiam em bando, e deixavam nosso protagonista para trás.

Em alguns dias ele se sentia triste; em alguns outros, rejeitado. Mas era fato que, em todos os dias ele não conseguia se sentir parte daquilo. Não se sentia parte de nada.

Nos dias mais quentes do ano, ele gostava de voar pra perto das praias. A comida era um pouco ruim, e difícil de achar, mas ele gostava de pisar sobre a areia, gostava daquele vento quente e sufocante, das gotículas de água salgada dançando no ar.

Nos dias de inverno ele procurava a copa das árvores, aquelas que ainda tinham muitas folhas pra protegê-lo do vento. Ele até tentava se aproximar dos grupos de pássaros se aquecendo, mas eles logo fugiam. Nosso protagonista era diferente, era estranho, era único em sua forma de ser, e isso o entristecia.

Quando chegava a primavera era a pior parte; ele queria companhia, ele sentia falta de ter alguém para si, se é que tais coisas são possíveis no mundo dos pássaros. Ele procurava nos lugares mais insólitos, nos mais óbvios, em todos os lugares, mas nada era capaz de aplacar sua solidão, ninguém queria sua companhia, ninguém era capaz de compartilhar algo com ele; ou assim ele enxergava.

Os anos foram passando, e ele foi ficando sério e sisudo. Sarcasmo era seu pão, sua ferramenta contra aqueles que o incomodassem em qualquer aspecto. Sua ironia marcava-se no olhar esguio, e na aparência de risada. Pássaros podem sorrir?

Mais tempo se passou. Mais tentativas frustradas de se relacionar com os outros. Um belo dia ele simplesmente desistiu. Achou que era melhor pra si mesmo. Deveria se poupar de sofrimentos inúteis.

Voou até o prédio mais alto que conhecia e ficou olhando a cidade. Viu bandos de pássaros voando pelos céus, viu outros pássaros menos felizes sendo deixados pra trás; E finalmente entendeu que não era questão de se sentir bem-vindo entre os outros. O mundo dele era mais do que os outros podiam ver. Sem que tivesse percebido, ele queria muito mais da vida de pássaro, ele queria muito mais da vida em si. Deixou-se cair do último andar, abrindo as asas e voando perto do chão. Seu coração pulsava, ele se sentia eufórico.

Tinha a certeza de que não seria aceito pelos outros pássaros, mas isso não era importante, ele havia encontrado prazer e satisfação em ser apenas ele mesmo, fazendo o que gostava, sem precisar se parecer com ninguém, ou imitar ninguém. Seu mundo havia se tornado maior do que os outros podiam se dar conta.

sábado, 17 de novembro de 2012

Desejando

Por onde passava via os laços entre as pessoas. Mãos que se tocavam, lábios que se encontravam, olhares esguios que trocavam confidências.

Não com ele. Ele colocava as mãos nos bolsos da jaqueta e olhava para os lados, com a cabeça levemente inclinada pra baixo. O vento frio bagunçava ainda mais a franja desajeitada dele. Todos os amigos já tinham dito que a época já tinha passado; não pra ele. Ele gostava daquilo e não dava trabalho pra pentear.

O clube estava cheio, dava pra saber antes mesmo de chegar, pela quantidade de garrafas vazias abandonadas junto ao meio fio e pelas latinhas entulhadas em volta da lixeira. Uma trilha de pontas de cigarro tornava tudo mais fácil. Ele se lembrou de economizar, já que só tinha meio maço.

Na porta, a fila já virava a esquina. Não que isso fosse problema pra ele. Conhecia os DJS, conhecia o dono da boate; cumprimentou a quem devia e entrou, o nome dele já estava na lista.

As músicas de sempre, várias pessoas conhecidas, de longa data até. Ele foi até o bar e pegou uma cerveja barata; eram as melhores de se beber em boate. Subiu as escadas até o camarote, cumprimentando os seguranças no caminho.

A moça da lojinha veio ao seu encontro com um abraço apertado, um beijo no rosto. Tanto tempo que não se viam. É, ele estava um pouco sumido das baladas porque não via mais tanta graça assim. Ela dizia que entendia, que era coisa da idade mesmo, de procurar novos ares. Namorados ou namoradas? Nah, ninguém. Solteiro na pista e procurando, mas tava difícil.

Ela voltou pro trabalho dela, ele sentou no sofá vermelho e ficou olhando a pista lá embaixo. A interação entre as pessoas era fascinante. Alguns trocavam olhares, outros trocavam toques. Uns poucos pediam pros amigos os apresentarem. Ele se levantou e começou a dançar, desengonçado. Estava se divertindo, ou assim parecia. Alguns meninos subiram no palco e fizeram coreografias, ele riu enquanto tomava mais uma cerveja.

Lá pelo meio da noite ele desceu novamente, passando no meio da multidão. Os reservados do banheiro todos ocupados, dois pares de pernas podiam ser vistos em cada um deles. Não precisava ser vidente pra saber o que estava acontecendo. Ele andou até a parede, no mictório e abriu o zíper, cantarolando enquanto deixava a cerveja sair. Um cara parou do lado dele, começou a fazer o mesmo, dando espiadas de leve. Com um sacudir de cabeça ao mesmo tempo em que abotoava a calça e um pequeno riso tímido, o rapaz saiu sem nem ao menos lavar as mãos. Bem, não tinha papel pra secar mesmo.

As músicas ficavam mais lentas, podia ver os casais abraçados na pista, trocando beijos, alguns trocavam carícias impróprias. As luzes vermelhas e azuis incidiam exatamente sobre ele; e ele se sentia feliz; e ao mesmo tempo incompleto, mas não sabia o que faltava pra ele.

Voltou ao camarote e acendeu outro cigarro e outro depois. Talvez estivesse ficando velho pra este tipo de coisa. Talvez devesse frequentar outros lugares, ver outras pessoas. Talvez devesse desejar coisas diferentes.

Mas naquele momento, ele só conseguia olhar pra pista e ver a quantidade de casais; as pessoas juntas, de mãos dadas, e enquanto na mão dele, um cigarro e ocasionalmente uma cerveja. Talvez aquela não fosse a praia dele mesmo.

Terminou o cigarro, despediu-se de todos antes do final da festa e saiu. Não tinha ninguém esperando por ele. Ia pegar um táxi pra casa, que era mais confortável. A madrugada -que madrugada ? Era quase manhã- continuava fria, e ele fechou a jaqueta. Caminhava devagar em direção ao ponto de táxi perto da esquina.

E foi quanto tudo ficou preto por um instante

Ele ouviu um cantar de pneus, mas não sabia ao certo de onde tinha vindo.

Abriu os olhos pra ver rostos desconhecidos sobre ele. Quem eram aquelas pessoas? O quê estavam fazendo ali?

Foi quando se deu conta de que podia ver o sol. a moça inclinada sobre ele movia os lábios, mas ele não conseguia entender o que ela dizia. Tudo era tão estranho.

A moça continuava inclinada sobre ele. Ela estava chorando? Será que ela tinha olhado na direção do sol? Sem saber por qual motivo, algo dentro dele mudou, e ele podia sentir sua mão se movendo em direção ao rosto dela.

A mão dela encontrou a dele no caminho. Era quente, macia. Ele desejou poder segurar a mão dela por mais tempo.

E fechou os olhos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Diferente

Desde criança sei que não sou como os demais. Algo dentro de mim nunca pareceu certo, e foi bem antes do divórcio dos meus pais. Não adianta jogar a culpa nisso agora, como eu vejo muita gente fazendo: "ahn, é culpa dos meus pais que não me amavam, é culpa do meu pai ter saído de casa, é culpa da minha mãe ter fugido com outro homem". Não é meu caso; sempre fui diferente de todos os outros, mesmo antes de saber o que significava.

Na escola eu tinha notas médias, era mais um rosto na multidão de meninas e meninos. Escola pública, não podia esperar muita qualidade ou exclusividade; andava com ambos grupos e ninguém parecia se importar; podia ser apenas a representação de mim enquanto estava com eles.

Mas nada permanece igual por muito tempo, as coisas sempre mudam, sempre se alteram, e quase sempre de forma desagradável para aqueles que são minoria. A minha diferença começava a gritar pros outros, começava a impedir que as outras pessoas chegassem a mim e vice-versa. Enquanto que pra mim, continuava a mesma pessoa, nos mesmos mínimos detalhes, fazendo as mesmas coisas.

A adolescência chegou, o corpo começou a mudar, e não sei como, mas o meu mudava ainda mais devagar. Parecia que eu não ia mudar. Eu não queria mudar. As meninas já desfilavam com seus sutiãs, os meninos exibiam orgulhosos sua penugem debaixo do braço e eu mostrava um sorriso amarelo de descontentamento.

Casais começaram a surgir. Bilhetinhos trocados, passados de mão em mão durante as aulas. Mãos dadas no intervalo. Aquele roçar de lábios com a boca fechada que chamavam de beijo. Mas não comigo, nunca pra mim. Ou assim eu achava.

O nome dela era Laura, e no momento em que eu a vi, tudo ficou diferente. Algumas semanas se passaram até eu vê-la de novo. Conversamos; ela riu, me olhou esquisito e se despediu. Não mais a vi. Ainda sonho com ela de vez em quando, do sorriso sem-graça, do olhar desejando que eu saísse de perto; meu peito dispara quando acordo. Dá uma sensação triste de vazio; o peso de ser diferente faz com que minhas costas se curvem aos poucos, ou assim parece.

Meses se passam, muitos meses na verdade; os anos vão se passando devagar, e eu vejo as pessoas mudando, a cidade mudando, o peso da diferença nas minhas costas cada vez maior. Lido com os olhares, os insultos, as pessoas que não entendem ou não querem entender como sou.

Um dia, voltando à noite, um pastor me abordou, me jogou no chão e orou pela minha alma, enquanto mulheres vestindo sacos, ou túnicas gritavam ao seu redor. Enquanto eu me recompunha e corria, me chamavam de demônio, mandavam eu voltar pro inferno. Não é o tipo de coisa que vemos.

Eu sei que tem algo diferente com a minha cabeça, e sou feliz com isso, não entendo a necessidade dos outros de me dizerem que é feio, que é errado, que é imoral. Não entendo a necessidade dos outros de se provarem tão melhores que eu em coisas com as quais não me importo.

Pessoas diferentes são protagonistas das mesmas tragédias, incapazes de mudar, sofrem sozinhas; buscam apoio em psicólogos, psiquiatras; buscam refúgio na bebida, nas drogas, no sexo... eu nem sei como são essas coisas. Masturbação mesmo eu só fui saber exatamente como era quando já tinha meus 16 anos. E olha que não achei lá essas coisas.

E eu vejo que as tragédias aumentam cada vez mais, e cada vez mais as pessoas me urgem a deixar esse meu lado diferente, a abraçar o que é comum, o que é certo, o que todos fazem. Cortar laços com as coisas erradas.

Então, com a pequena faca de limpar carne da cozinha, eu me livro do que é diferente, procuro fazer rápido pra não sentir dor.

O baque surdo não acorda ninguém, e o último barulho de que me dou conta é de um pequeno esguichar de  sangue que sai do meu pescoço.

Se não pensar, não preciso ser diferente; se não tivesse a cabeça que tenho, seria mais fácil.

Quem sabe agora pode ser fácil...


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Rótulo - gay

Tudo bem em ser gay...

Mas tem que ser discreto, brother macho, marrento, pegador de mina; não pode ter pato na garganta nem desafinar quando fala. Não pode rebolar quando anda, nem mexer a mão.
Tem que ser lek firmeza, mesmo quando já passou dos 18 anos; tem que ser parrudo e malhado, nada de magrelo e nada de gordo. Tem que ter o bíceps pra mostrar, foto sem camisa no orkut, de preferência, só com uma cueca slip mostrando parte dos pentelhos.
Tem que curtir uma breja de vez em quando, mas não pode ter pancinha, tudo bem se não tiver gominhos, mas pancinha, dobra na barriga não pode.
Ajuda se curtir um beck, mas cigarro comum tb resolve né?
Tem que ser na encolha, no seu carro, ou na sua casa, porque ninguém pode saber.
Pode ter tatuagem, mas nada de nome de mãe e símbolo japonês. O negócio é escorpião, dragão, carpa no braço, esses aí é que são pika!
Pêlo no peito e na barriga até vai, mas favor depilar as costas e a bunda; aparar os pentelhos tb é bom.
Tudo bem ouvir umas músicas de viado em casa, mas nada de curtir Lady Gaga, Britney e Madonna, isso é coisa de viado, e eu só curto cara macho; tem que ser um pagode, um funk proibidão, uma eletrônica mandada, cara que é macho saca logo qual é.
O negócio é: tem que ser dotado. 18 cm pra cima, ou não quero nem papo. Não ligo se é passivo, versátil ou ativo; se não sobrar bastante na minha mão, não quero.
Não fica de conversinha, não pede webcam, já chama logo pra real.
Não tem essa de passar a mão, não tem esse negócio de beijo na boca, é joelho no chão, boca pra trabalhar, joelhos e cotovelos sobre a cama e a cara afundada no travesseiro.

O papo é o seguinte: Faço muitas exigências porque sou vazio e incapaz de satisfazer a quaisquer exigências dos outros.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mensagem pra mim

Oi, tudo bom? Obrigado pelo e-mail.

Sabe, não devia dizer, mas eu sinto medo; de muitas coisas.

Acho que, com a vida que eu levei, e a forma como cresci, sentir medo era a reação mais normal e mais provável. Tenho medo de investir no novo, medo de confiar, me entregar e ser deixado, esquecido, ignorado.

É, eu até reconheço que não tivemos muito de uma relação né? Mas pelo menos a gente tentou e sobraram boas recordações. Eu acho que foram boas. Tá bom, algumas boas e algumas ruins, mais pro lado bom. Satisfeito? Imagino que vc deve estar rindo.

Eu tb sempre soube que você gostava de mim, de verdade, mas eu não tive essa capacidade de me comprometer, de me envolver completamente e me deixar levar pelas emoções. Não é que eu seja covarde, é que isso já se provou destrutivo na minha vida.

E olha onde estamos agora. Você pode negar, mas ainda guarda sentimentos por mim, e eu não estou nem aí pra isso. Claro, penso em vc como penso em qualquer outra pessoa. O fato é que eu tenho tentado, ativamente, sabotar meus próprios relacionamentos, me envolvendo com quem não liga pra mim.

É quase um vício, eu tento afastar quem parece que gosta de mim, pra tentar me aproximar de outros, e esses outros me afastam, traem minha confiança, me usam, me enganam. É foda.

Sou imperfeito, e imperfeito pra caralho às vezes. Sei o que quero, acredito eu, mas na maior parte do tempo não tenho os mecanismos pra alcançar. Sinto falta de alguém do meu lado; alguém que acredite em mim, que me dê força, que me dê mais que sexo, que me ofereça companhia, que me faça perceber - e acreditar - que consigo, e não, não pode ser você.

Não pode ser você porque sempre lembrarei de tudo o que aconteceu entre nós, cada briga, cada discussão, cada lágrima que vc deve ter derramado, ou que eu derramei, cada momento de solidão que passamos, mesmo quando estávamos juntos.

Se a gente tivesse continuado, como você queria, pode ser que, eventualmente, por um motivo ou  outro a gente viesse a brigar por coisas que somos muito diferentes, e íamos terminar nos magoando. Ainda guardamos mágoa um do outro? Não sei, pode ser que sim, mas pelo menos nos falamos ocasionalmente. Você com seu sarcasmo, eu com minha ironia e desprezo pelo alheio.

Acho que não sei como encerrar, só dizendo "obrigado por se preocupar comigo", mas sei que vc não gosta de agradecimentos. Tb não vou dizer "pode contar comigo", porque sei que vc não funciona assim. Então... o melhor pra nós dois. Você com seu mundo e eu com o meu. Tomara que, de alguma forma, a gente se dê bem na vida. Que eu encontre um cara que gosta de mim como sou, e que me valorize, e que vc encontre um cara pra cuidar, e que seja capaz de cuidar de você.

Um beijo

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mensagem pra você

Oi, tudo bom?

É, é um péssimo modo de começar um e-mail. Ainda mais sabendo que você pode nem ler, jogar fora direto, marcar como spam.
Aliás, nem sei se você ainda usa este e-mail, mas eu precisava escrever, e era coisa demais pra uma sms.

Outro dia eu estava fazendo backup das minhas coisas no PC, encontrei fotos suas, fotos de nós dois, fotos minhas que você tirou, e fiquei na dúvida sobre apagar ou não. Não temos mais nada; não terminamos bem, até voltamos a nos falar depois de um tempo, mas eu não sei exatamente onde estamos.
Sabe, vira e mexe eu me pego pensando em você, nas coisas que aconteceram e nas que podiam ter acontecido caso ainda estivéssemos juntos.

Acho que o mais difícil pra mim foi lidar com o "eu não sou capaz de te amar do jeito que vc me ama". Sempre fomos muito diferentes, a forma como vejo a vida é bem diferente da sua, tive experiências que você não teve, e vice-versa; relacionamentos não são construídos em cima de equivalências, mas em cima de reciprocidade. Não há como medir quantidade de amor, ou quantidade de atenção.

Uma das coisas de que eu me arrependo é que num ímpeto de raiva eu deletei parte das suas mensagens. Às vezes, por mais simples que fossem, me traziam um sorriso sincero, por pensar em cada coisa boa que vivemos; mas agora é passado, não é nada que eu possa fazer e mudar isso. Ainda guardo as lembranças, a melhor coisa de nós que pode haver agora.

Não vou mentir; sei que você ainda mexe comigo, e acredito que vc saiba disso também. Queria ser capaz de mexer com vc como antes, mas isso não está no meu controle. Imagino que outras pessoas já tenham passado pela sua vida, assim como algumas passaram pela minha; algumas deixaram marcas agradáveis, outras a gente acha melhor esquecer... é um mal da vida né? Não tem como fugir.

Mas sabe, eu me importo com você, de verdade. Mesmo que nunca mais tenhamos nada, que não passemos de conhecidos que se cumprimentam em datas festivas, eu quero ser capaz de te oferecer apoio quando vc precisar; quero que vc se sinta confortável novamente comigo. (Claro que seria bom sair com vc ocasionalmente e dar uns amassos, mas aguento de boa viver sem)

Nem vou ficar escrevendo muito mais, sei que vc tem seus problemas, e não precisa ouvir os meus. Só queria dizer novamente que, tô aqui pra vc, sempre estive e sempre estarei. Se um dia vc disser que quer que eu me afaste, eu vou me afastar; mas vc me conhece, sabe que gosto de cuidar de vc, e de outros tb, mas vc é especial. Vc fez parte da minha vida, e uma parte extremamente significativa, da qual o tempo não vai apagar. Não há como negar ou esconder: tentei te amar como pude, como sabia, como achei que daria certo. Não deu certo pra nós, estamos separados, mas não deixei de te amar; não deixei de desejar o seu bem, não deixei de pensar em vc e como quero que você seja feliz; lamento se isso te incomoda, mas precisava dizer.

E se chegou até aqui, fico feliz por não ter jogado fora. Às vezes, precisamos apenas de uma coisa boba e melosa como esta pra juntarmos forças e seguirmos adiante.

Não precisa me responder se quiser, não precisa dizer mais nada caso não se sinta confortável, só achei que vc devia saber. Sabe como é falar por horas é o meu negócio; dizem que eu sou bom com as palavras, e se vc puder aproveitar algo do que eu disse aqui...

Fica bem, nunca se esquece que antes de ser seu namorado, eu tentei ser seu amigo, e ainda quero.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Companhia



-Você reclama que está sozinho, procura em inúmeros cantos por um cara que te faça feliz; e falha em perceber que já tem um cara disposto a construir sua felicidade junto com você.
Mas não, esse cara você não quer, você quer o desafio, a incerteza; você escolhe a dúvida. Não venha me culpar quando eu desistir de você. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Tentei te ajudar a ser feliz. Você é quem não quis.

As palavras soavam ásperas, eu sabia disso, mas elas tinham que ser ditas. Ficaram entaladas por tempo demais na minha garganta. Por mais que eu o amasse, eu sabia que ele não queria um cara legal, ele estava sempre procurando pela emoção de um canalha, de alguém que flertasse com outros, quem sabe que o traísse.

Eu ofereci tudo o que podia. Afeto, atenção, carinho, amor. Ofereci amor? Ofereci aquilo que entendia como amor, mesmo sabendo que ele seria incapaz de retribuir. Porque amor é assim, você simplesmente sente, você simplesmente faz, sem se importar se terá retribuição, se vai ser recíproco.


Ele levanta os olhos pra mim pela primeira vez desde que eu comecei a falar. Isso não é uma conversa, apenas eu digo as coisas; ele balança a cabeça e sinaliza que entende. Não consigo funcionar assim; preciso da voz das pessoas assim como preciso de ar. Preciso que verbalizem o que sentem, preciso que me digam que não estou desperdiçando meu tempo falando com as paredes.

A voz dele sai tímida, como sempre, as palavras entrecortadas.

-Eu não procuro outras pessoas
-Mas também não se sente feliz comigo
-É... porque...
-Porque podemos dar errado, podemos discutir e brigar e nunca mais nos falarmos. Podemos dar certo e ficar juntos o resto da vida. Podemos dar certo por um tempo e querer coisas diferentes depois. O bom do futuro é que ele vai se construindo um dia depois do outro e depois e depois; não adianta pensar agora; não adianta calcular agora porque eu sou incapaz de entender você, você é incapaz de entender a mim. Somos todos tão absorvidos na nossa bolha de realidade relativa que em algum momento perdemos a capacidade de entender uns aos outros.
-Você fala muito difícil pra mim
-Eu falo muito. E falo o que sinto, esse é o problema. Dizem que eu sou bom em sentir as coisas; eu acho que sou bom apenas em falar e falar sem parar.

-A gente não pode ficar junto...
-Eu sei o que você vai dizer. Que não podemos fica juntos porque você acha que eu gosto mais de você do que você de mim. Mas somos pessoas diferentes, com experiências diferentes na vida. Nunca teremos o mesmo posicionamento com relação a algo. Não se trata de amar mais ou amar menos, nunca foi isso. Não existe quantidade de amor. Ou você ama, ou você não ama.

-Eu não sei se amo.
-Não sabe porque não quer tentar; mas eu não sei explicar o porquê, as coisas perdem um pouco do sentido e toda a graça quando o seu corpo não está perto do meu. É no encontro da minha mão com a sua, do seu sorriso com meu que as coisas parecem melhorar. É isso que me traz um sorriso.

Ele sorriu, tímido, novamente eu tinha falado demais.

-É por isso, por te amar, por querer você perto que eu estou sendo paradoxal e estou partindo. Se por hoje ou para sempre eu não sei ainda. Eu vou encontrar aquilo que perdi aqui dentro do peito, e quando eu encontrar, pode ser que eu volte; pode ser que você perca o medo que tem de mim, pode ser que as coisas se resolvam.
-Você tá falando com muita incerteza.
-Só posso ter certeza do presente. Por mais forte que seja o que eu sinto por você; o que eu sinto por mim mesmo vai superar; sempre. Sempre fui e sempre serei minha melhor companhia. A segunda melhor sempre foi você, mas acho que fui incapaz de demonstrar isso.
-Não, não foi.
-Promete que se cuida? Promete que vai continuar vivendo sua vida e tentando ser feliz?
-Eu sempre tento. Mas queria continuar te vendo.
-Você sempre sabe onde me encontrar. Eu sou a segunda melhor companhia que você podia querer, mas infelizmente você não quer.


Um abraço, um beijo e em seguida, o bater da porta. Foi difícil? Até que foi, mas finalmente eles estavam prontos pro hoje; os dois. E teriam que lidar com aquilo que mais temiam: eles mesmos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Carta

Ela parecia muito séria enquanto suas mãos caprichosas faziam o desenho de cada letra. Sabia que não podia errar; não podia vacilar. Só teria essa chance de escrever tudo o que queria.

"Sabe, invariavelmente nós chegaríamos ao fim, com tudo o que aconteceu entre nós; do começo tumultuado passando pelas brigas, discussões, vexames públicos; sua incapacidade de me entender e a minha incapacidade de permanecer a mesma.

Eu sou uma reinvenção constante, preciso disso como preciso do ar, você precisa do seu espaço, precisa de solidez.

Você diz que todos são iguais e não aguenta mais procurar, tão pouco aguenta esperar; por isso estava terminando comigo. Eu sabia que você já tinha outra; sempre soube.


Seja a diferença que procura nos outros. Antes de exigir demais, pense em doar-se mais um pouco.

É por isso que nunca demos certo, eu sempre pensei em você antes de pensar em mim, e você fez o mesmo. Sempre pensava em si mesmo em vez de pensar em mim.

Esse é um adeus sem sabor amargo, sem ressentimentos."


Ela sorriu ao terminar. Precisava de um banho. Deixou as roupas caírem pelo chão do apartamento. Um módulo de solteiro simples, sem nenhum conforto, mas que bastava, com uma janela ampla que, quando você se esticava um pouquinho pra direita, podia ver o mar ao longe. Não era o que ela tinha sonhado, mas nem todos os sonhos se realizam.


A água fria era quase um carinho pra seu corpo até então negligenciado. Ela aprendera quando criança que os banhos frios faziam bem pro organismo, mas mesmo assim se rendia aos banhos quentes. Ainda tinha a remota esperança de um apartamento com banheira, mas talvez não devesse sonhar com tanto; já que apenas o hoje interessava.

Olhou no relógio enquanto se secava; já estava anoitecendo e ela não pretendia ficar parada. Escolheu um par de brincos e pulseiras, colocou a calcinha nova, que tinha comprado e estava esperando uma ocasião pra usar. Decidiu não usar o vestido; era muito clichê. Preferiu uma boa e confiável calça jeans, bem justinha, e uma blusa confortável, que realçava seu seios.

Olhou novamente para o que havia escrito. O estilete ainda estava sujo de sangue sobre a cama, a lado do corpo inerte do namorado. Admirou sua letra, gravada nas costas dele. Aquilo sim era arte. A beleza do vermelho em contraste com o negro da pele dele e o branco dos lençóis; cada um dos inúmeros tons de vermelho que ela era capaz de distinguir. Um sorriso verdadeiro brotou em seus lábios enquanto ela caminhava e abandonava a janela.

Aqueles que testemunharam, disseram que ela não fez mais que um baque surdo quando chegou na calçada, ainda rindo. Os amigos disseram que ela havia dado tudo de si pra ele, e não restara nada pra que se quebrasse com o impacto.

A carta, entalhada na pele do namorado foi fotografada e reproduzida em vários jornais e na internet; Os poucos quadros dela que estavam à venda sumiram. Todos queriam para si um pedaço da loucura dela. Quanto a ela, queria apenas... não, talvez ela não quisesse nada. Talvez ela tenha compreendido tudo enquanto escrevia, por isso seu sorriso. E é um segredo que ela nunca irá compartilhar.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Transitório

Ela batia ansiosa com os dedos das mãos na madeira do banco. Ele estava atrasado, de novo; e desta vez mais de quinze minutos. Pegou o celular pra olhar casualmente as redes sociais, uma mensagem dele pedindo desculpas porque o trânsito estava um inferno. Ela riu.

Provavelmente ele nem tinha saído do escritório ainda. Vida de office-boy era dura, ela sabia; mas tinham decidido pelo namoro, não? Ele tinha que se esforçar também; o tempo em que ela estava ali, plantada, esperando por ele, podia estar fazendo a resenha de um dos livros que o chefe tinha mandado. Trabalhar na editora não estava sendo fácil, mas pagava as contas e ainda garantia um dinheiro miúdo pra épocas mais difíceis.


Mais dez minutos de espera e finalmente ele estava lá, despenteado, sem fôlego. Era engraçado de ver, e ela não conseguia evitar um sorriso infantil de reprovação. Ele trouxe flores um tanto quanto amassadas; já meio murchas, mas o importante foi a intenção, e ela o abraçou com força, deixando-o sem-graça. Ele não estava muito acostumado com demonstrações públicas de afeto.


Pegaram um na mão do outro e continuaram conversando sobre seus dias, sobre seus empregos, sobre suas famílias irritantes. Toda sexta, no final do expediente, alguns saíam pra beber; eles saiam pra conversar. Eram amigos desde quando? Desde os tempos da escola, sexto ou sétimo ano; separaram-se no ensino médio; reencontraram-se por acaso já no finalzinho da faculdade: uma amiga dela estava saindo com uma amiga dele; não durou muito, infelizmente, mas os reaproximou.


Foram semanas de conversa online, alguns tweets trocados, algumas curtidas no facebook, poucos convites pra sair até que finalmente uma brecha no horário permitiu que se encontrassem; foram ver um filme qualquer, uma daquelas comédias românticas que servem pra que os casais tenham privacidade pra trocar alguns beijos no escuro do cinema.


Ele passou a mão por trás dos ombros dela, ela inclinou o pescoço, eram apenas mais um clichê de casal entre tantos outros, o arrepio na coluna, a língua passada discretamente nos lábios pra umedecê-los, a dormência no braço depois dos minutos iniciais, a mão dela dedilhando os botões da camisa dele. Tudo parecia bom, e foi se repetindo, e repetindo, e repetindo mais e mais.


Mas nem tudo na vida deles podia ser resumido em felicidade: Ela era bastante regrada, e ele tímido até demais. Ela achava que ele era virgem, e ele realmente era. Não ficou por muito tempo. Ele achava que ela era mente aberta demais, e ela realmente era. Não demorou muito pra que ele começasse a ver o mundo com outros olhos.


O maior problema nele era a impontualidade. O maior problema dela era a inflexibilidade; e eles às vezes faziam piadas um do outro enquanto tomavam sorvete nas sextas-feiras. Nem sempre transavam, só quando ele recebia um extra no serviço. Ele fazia questão de pagar o motel, porque se sentia desconfortável em fazer no apartamento dela.


Os dias foram passando, as semanas correram, os meses praticamente se desfizeram enquanto as páginas do calendário eram jogadas fora. Ele conseguiu uma promoção, e um salário mais gordinho; ela foi chamada pra ministrar um curso sobre Literatura fantástica. Ainda não sabia se ia aceitar, ainda não tinha pensado em como contar a ele.


Pra que as coisas ficassem mais difíceis, desta vez ele chegou antes, estava esperando por ela, com um sorriso, e uma declaração.

"Eu te amo"


Ela engoliu em seco. Claro que eles já haviam trocado juras de amor, mas desta vez era diferente; ele realmente falava sério. Ela controlou o pânico dentro de si e domou a respiração


"Precisamos conversar"


Ele empalideceu, mas consentiu.


"O quê é o amor? Sejamos objetivos: temos o aumento da temperatura corporal, assim como o aumento do fluxo sanguíneo em nossas veias, o que faz com que o coração bata forte. Temos a boca seca o cérebro que se perde em fantasias possíveis e impossíveis ao lado de alguém que nos faz feliz."

"Eu te faço feliz?"
"Por conta disso sempre estivemos juntos; mesmo separados. Mas eu tenho que dizer que a gente tem que se afastar por um tempo."

E ela contou do convite; mesmo triste, ele aceitou, resignado. Ela não pertencia a ele, nunca pertenceu; por um acaso do destino eles trilharam o mesmo caminho juntos.


As sextas-feiras estavam um pouco mais vazias agora. Ela estava em outra cidade, trabalhando; ele decidiu fazer uma outra faculdade à noite. Os meses trouxeram os primeiros fios brancos dela; que ela rapidamente escondeu. Aproveitou pra mudar o castanho do cabelo pra um tom de cobre. Ela sempre quis cabelos acobreados. Pra ele o tempo trouxe um cavanhaque, e logo em seguida uma barba. Alguns quilos a mais também, e graças aos deuses a calvície não deu sinal.


Ela finalmente lançou o livro que ela tanto queria, mandou convites a todos os amigos e conhecidos. Ele não poderia ficar de fora, mas estava ocupado cuidando dos gêmeos. Pois é, ele tinha casado com uma mulher até parecida com ela, e teve a sorte de ter gêmeos.


Talvez sejamos apenas pó de estrela; esperando, procurando pelo universo alguém disposto a queimar na atmosfera conosco, na mesma sintonia...


São momentos transitórios de felicidade incandescente, sufocante, arrebatadora; do tipo que nos faz lembrar sempre e sempre e sempre, e reviver esses momentos na memória quando as coisas não vão tão bem.

E ela pensa que deveria ter dito "eu também te amo", mas é tarde demais pra isso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Maldição

Depois de pensar, repensar, escrever e reescrever, decidi postar esse conto. Como muitos outros, estava perdido na minha pasta de idéias...



   O bater da porta me traz de volta à realidade apenas para que eu perceba a bagunça do apartamento. A louça amontoada sobre a pia, e uma camada perceptível de pó sobre os móveis.
   A televisão da sala transmitindo apenas estática, e eu lembro que há muito deixei de pagar a assinatura da tv a cabo; preocupo-me apenas com a internet; tem de tudo no youtube, sem que eu precise me preocupar com os horários.
   Acendo um cigarro, mas não sem antes apertar a bolinha. Não que eu goste do sabor diferente, tem o mesmo sabor de sempre, mas acho que me viciei no barulhinho, naquele pequeno estalo insignificante. Sempre fui bom pra gostar de coisas insignificantes; acho que por isso acabei gostando dele.
   A primeira vez em que nos vimos deu tudo errado; cheguei atrasado, cansado, ele tinha saído do trabalho também, não tava com muito saco. Pensei em ligar pra desmarcar, mas já tava lá mesmo; e conversamos por horas e quando vimos, já estava na hora de irmos embora. Quis tomá-lo pra mim naquele instante, quis que ele fosse meu, mesmo sabendo que jamais teria sua posse.
    Saímos outras vezes até que finalmente fomos pra cama. Foi melhor do que eu imaginava, tenho que confessar. Todas as três vezes daquela noite. Acho que estávamos com muita vontade.

   Levanto da cadeira e decido que tenho que parar de pensar nessas coisas e lavar essa louça. Não sei onde eu estava com a cabeça pra jogar os restos de comida na pia; podia ter entupido essa porra toda e quem ia dar um jeito nisso? Nunca fui bom com essas coisas de consertos. Quando meu chuveiro elétrico queimava, eu não trocava a resistência; comprava outro. Agradeço a Deus pelo aquecimento a gás.
   O contato com a água fria me lembra da primeira vez que tomamos banho juntos, em que eu o abracei por trás e passei a mão em seus cabelos, e ele arqueou as costas. Queríamos banho quente, mas aquele chuveiro não estava ajudando.
   Engraçado, nada na nossa relação ajudava: Nossos horários conflitantes, nossos pais, nossos gostos musicais, nossas preferências no sexo... eu sempre fui mais careta, o mais baunilha da relação, você queria sempre inovar, sempre uma posição nova... mas até que isso não era um problema, porque deitados (ou de pé, ou ajoelhados, ou sentados) a gente sempre se entendia.
   E ainda tinha a questão das palavras... e elas nunca me faltaram pra descrever você, pra me relacionar melhor com você; e você era todo na sua, tinha medo de que as palavras pudessem te ferir de forma irreparável. Sei lá, às vezes acho que não era pra ser.

   Louça lavada, hora de passar um pano nos móveis, mesmo que ninguém vá aparecer. "Todo término também é um recomeço". Lembro de ter lido em algum lugar; parece frase de caminhão, mas o importante é que serve neste momento.
   Não lembro de nenhuma briga nossa, em todo esse tempo de convivência; e acho que pode ser nisso que erramos. Brigas dão margem a separações e a uma melhor compreensão das coisas. Se nunca brigamos, pode ser que nunca tenhamos realmente compreendido um o lado do outro.
   O cigarro finalmente se apagou, e eu nem lembrei de tragar, Acho que acendi mesmo apenas pelo barulhinho. Um rastro de cinzas e uma guimba solitária no cinzeiro me fazem procurar os restos dos seus cigarros. Percebo que nisso eu fiquei mais parecido com você; mesmo que não seja uma coisa muito saudável, sempre que eu fumava me sentia mais perto de você, assim como nas poucas vezes que você vinha dormir aqui e queria dormir com aquela minha camisa azul.
   Os lençóis ainda estão em desalinho; um dos pés do seu chinelo favorito embaixo do criado mudo; é o tipo de coisa que dói ver, dói lembrar, mas ao mesmo tempo é uma dor necessária; é o que vai fazer eu tirar você daqui de dentro do meu peito.
   Talvez mais tarde eu consiga arrumar a cama, mas por agora, eu volto pra cozinha, sento na mesa e pego o cigarro novamente. O estalo me faz pensar na primeira vez que fumamos juntos, naquele motel barato que decidimos passar a noite. Acho que estou pensando demais em você, agora que você me deixou, mas não posso evitar, minha maldição é pensar demais, é sempre ficar pra trás enquanto os outros decidem novos rumos pras suas vidas. Eu permaneço aqui, sentado e pensando.
   Mas não tem problema; já me acostumei; e eu tenho todo o tempo do mundo pra pensar em você, em mim, em nós, e o que será do "eu", agora que você não está mais aqui.

   E quando me dou conta novamente, não tenho mais que pensar no "nós" que existiu, porque existiu apenas pra mim.

domingo, 24 de junho de 2012

Travesseiro

Gosto de dormir com o celular debaixo do travesseiro; minha mão segurando firme no aparelho, apesar de eu saber que ele não vai tocar.
Minha cama é de solteiro, mas é bem espaçosa. Por algum motivo que foge à minha compreensão, eu só durmo encolhidinho no canto da parede, com os olhos fixos na porta, por mais que eu saiba que ela não vai abrir.

Eu consigo ver o mostrador do relógio sobre o móvel, com ponteiros se movendo devagar sobre o fundo colorido, mexo os pés pra encontrar uma posição mais confortável, que eu sei que não virá. Giro pro outro lado e encaro a parede azul do quarto, como um murro direto no meu estômago, a me encher de lembranças.

E então eu percebo que às vezes, rir é a melhor coisa a fazer quando a outra opção é ficar triste.

Infelizmente, acho que eu perdi essa habilidade. Ficar sério parece minha escolha mais segura.


E de vez em quando eu me lembro de vezes como a noite passada, em que chorei até dormir, porque a opção era fugir, ir embora.

Nem sempre o desenrolar dos nossos planos depende exclusivamente de nós, mas quase sempre é nosso o poder de fazer o outro se sentir importante.

Eu viro a cabeça de novo. O ponteiro grande acaba de se mexer.

O travesseiro está molhado, e eu percebo que não foi a noite passada, foi há poucos minutos.

E eu não tentei ser corajoso; a minha vinda pra cá foi a minha escolha mais segura, o conforto desse travesseiro, ao invés do conforto que nunca virá, já que certas palavras nunca serão ditas.

Quando eu sinto que perco todas as esperanças, sinto o telefone vibrando na minha mão. Sem que eu tivesse percebido, já amanheceu, e é hora de a vida continuar.