sábado, 29 de dezembro de 2012

Refúgio

Ela abriu os olhos, devagar. A luz do sol machucava seus olhos, fazia com que ela se protegesse com a palma das mãos. Era uma manhã de primavera, com pequenos insetos pela grama, subindo em suas pernas, enquanto o farfalhar da grama fazia seus ouvidos coçarem.

"Atrasado de novo", ela pensou; e sentou-se, olhando à volta. famílias felizes brincando no parque, aproveitando alguns instantes antes do almoço. Apesar de ainda manhã, a hora já fazia-se bastante avançada.

Era sempre assim, e ela nunca aprendia. Devia passar a chegar mais tarde, visto que ele sempre se atrasava. Só porque tinham combinado de almoçar juntos e ela já estava ficando com fome. Dois meses de namoro e ele não tomava jeito. Engraçado que, quando criança - ela pensava- ele era sempre pontual; ela sempre o via já na escola enquanto ela ainda cruzava os portões...

E pensar que naquela época, ela não ia muito com a cara dele; o cabelo bagunçado, aquela tira de couro no pulso, que ele chamava de pulseira, os tênis com cadarços diferentes, tudo incomodava. Pode ser que ela estivesse enganada também, ela já se sentia atraída e não tinha consciência disso.

Os minutos passavam e nada de ele aparecer. Ela tentou ligar, mas encontrou apenas a resposta da caixa de mensagens. Ele não viria, tinha que se conformar com isso. Tinha tomado um cano.

Levantou da grama e foi andando na direção da lanchonete mais próxima; já que o almoço romântico tinha sido estragado, pra quê se incomodar em comer direito?

Foi quando ela o viu, pelo canto do olho. Não sabia quem era, mas tinha a nítida impressão de já tê-lo visto antes. Um arrepio percorreu sua espinha, ainda que não soubesse o porquê; mas tão rápido quanto ela tinha visto, ele desapareceu. Devia ter sido apenas impressão.

Ela comeu seu sanduíche devagar, ainda um pouco contrariada, mas não podia fazer nada naquele momento, apenas chamar a atenção dele quando se falassem. Tentou ligar novamente; desta vez ninguém atendeu. A primeira coisa que ela pensou foi "esqueceu o celular em casa"

Estava desapontada, desanimada. Pegou o ônibus e foi cabisbaixa pra casa.  Mudou de idéia no meio do caminho. Já que ele não teve consideração por ela, ela ia passar o dia fazendo coisas que gostava. Desceu na esquina do shopping, foi ao cinema, sessão dupla, porque ela julgava merecer, com bastante pipoca e refrigerante. Light, claro.

Riu de uma comédia romântica pastelão, daquelas que desde o início você sabe o que vai acontecer, e emendou com um filme de ação, daqueles com tantas balas e explosões que você acha que vai encontrar alguma cápsula perdida pelo cinema. Andou pelos corredores do shopping, mas nada chamou sua atenção o bastante pra comprar.

Mas ao virar um corredor, jurava tê-lo visto novamente, o homem que tinha visto mais cedo; e tão rápido quanto antes, ele novamente sumiu. Seria coisa de sua imaginação? Bem possível que fosse. Já que seu namorado não aparecia, homens misteriosos a estavam observando. Só assim pra se sentir desejada né? Em imaginação.

Riu sozinha enquanto via o sol descendo no horizonte através da parede de vidro. Já era tão tarde assim? Então era verdade que quando as pessoas se divertiam o tempo voava.

Não estava tão longe de casa, decidiu caminhar um pouco, pensar na vida, e em como aquele dia pra si mesma tinha sido bom.

Estava ali, caminhando, absorta em seus pensamentos, e nem reparou nos passos atrás dos seus. Quando se deu por conta; o coração acelerou, ela empalideceu e forçou as pernas pra tentar correr; todo o resto era  escuridão. Ela tentou gritar, e de repente, abriu os olhos.

Um sonho, um maldito pesadelo.

A dor a atingiu de repente, o sabor metálico na boca, que ela não conseguia fechar e não entendia o porquê, apenas sentia algo de metal, que a impedia de fechá-la. As mãos presas numa espécie de mesa. As pernas latejavam, como se estivem passando do período de dormência; sentia que estava nua, mas não lembrava de como tinha ido parar ali.

Invocou a todos os deuses e santos que conhecia. Foçou as mãos tentando, em vão, libertá-las, tentou erguer o corpo, mas viu que não conseguia.

Foi quando o cheiro tomou conta dela. Cheiro de excremento. Forte, como se não fosse limpo há muito tempo. Sentiu o vômito se formando na garganta dela; quis fechar a boca pra impedir e não conseguiu. Estava ali, debruçada, com aquela poça de vômito na frente do seu rosto, nua, naquele cômodo escuro.
Teve vontade de chorar quando o desespero tomou conta dela, mas por algum motivo as lágrimas não vinham.

Ouviu um ranger de metal seguido do surgimento de luz. Uma silhueta masculina "ahn, você se sujou? Vou ter que limpar de novo?" seguido da porta se fechando novamente. Ela ouvia os passos dele chegando perto, sentiu um pano fétido passado pelo seu rosto, limpando seu vômito. "Seja uma boa menina que logo eu trago sua janta".

Ouviu os passos dele cada vez mais distantes, e a luz inundou o cômodo novamente. Desta vez ela o viu, seu namorado. Uma massa de carne inerte, com o pescoço virado num ângulo impossível, perto da porta. As lágrimas caíram, finalmente. Não era sonho, era o que tinha acontecido realmente; ela estava ali, nas mãos de um desconhecido.

Ele acendeu a luz de repente. Os olhos lacrimejantes dela fecharam dolorosamente. "Ahn... está chorando? Está com saudades? Acho que está sentindo falta de mim... eu vou cuidar de você"

E ela nem podia gritar quando o viu abrindo o zíper da calça e se dirigindo para as costas dela. Não podia se mexer, não podia gritar, só podia chorar, e sentir dor. Decidiu então fechar os olhos, e pedir com todas as forças que sonhasse, sonhasse com um lugar longe dali, de uma vez por todas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Desejando

Por onde passava via os laços entre as pessoas. Mãos que se tocavam, lábios que se encontravam, olhares esguios que trocavam confidências.

Não com ele. Ele colocava as mãos nos bolsos da jaqueta e olhava para os lados, com a cabeça levemente inclinada pra baixo. O vento frio bagunçava ainda mais a franja desajeitada dele. Todos os amigos já tinham dito que a época já tinha passado; não pra ele. Ele gostava daquilo e não dava trabalho pra pentear.

O clube estava cheio, dava pra saber antes mesmo de chegar, pela quantidade de garrafas vazias abandonadas junto ao meio fio e pelas latinhas entulhadas em volta da lixeira. Uma trilha de pontas de cigarro tornava tudo mais fácil. Ele se lembrou de economizar, já que só tinha meio maço.

Na porta, a fila já virava a esquina. Não que isso fosse problema pra ele. Conhecia os DJS, conhecia o dono da boate; cumprimentou a quem devia e entrou, o nome dele já estava na lista.

As músicas de sempre, várias pessoas conhecidas, de longa data até. Ele foi até o bar e pegou uma cerveja barata; eram as melhores de se beber em boate. Subiu as escadas até o camarote, cumprimentando os seguranças no caminho.

A moça da lojinha veio ao seu encontro com um abraço apertado, um beijo no rosto. Tanto tempo que não se viam. É, ele estava um pouco sumido das baladas porque não via mais tanta graça assim. Ela dizia que entendia, que era coisa da idade mesmo, de procurar novos ares. Namorados ou namoradas? Nah, ninguém. Solteiro na pista e procurando, mas tava difícil.

Ela voltou pro trabalho dela, ele sentou no sofá vermelho e ficou olhando a pista lá embaixo. A interação entre as pessoas era fascinante. Alguns trocavam olhares, outros trocavam toques. Uns poucos pediam pros amigos os apresentarem. Ele se levantou e começou a dançar, desengonçado. Estava se divertindo, ou assim parecia. Alguns meninos subiram no palco e fizeram coreografias, ele riu enquanto tomava mais uma cerveja.

Lá pelo meio da noite ele desceu novamente, passando no meio da multidão. Os reservados do banheiro todos ocupados, dois pares de pernas podiam ser vistos em cada um deles. Não precisava ser vidente pra saber o que estava acontecendo. Ele andou até a parede, no mictório e abriu o zíper, cantarolando enquanto deixava a cerveja sair. Um cara parou do lado dele, começou a fazer o mesmo, dando espiadas de leve. Com um sacudir de cabeça ao mesmo tempo em que abotoava a calça e um pequeno riso tímido, o rapaz saiu sem nem ao menos lavar as mãos. Bem, não tinha papel pra secar mesmo.

As músicas ficavam mais lentas, podia ver os casais abraçados na pista, trocando beijos, alguns trocavam carícias impróprias. As luzes vermelhas e azuis incidiam exatamente sobre ele; e ele se sentia feliz; e ao mesmo tempo incompleto, mas não sabia o que faltava pra ele.

Voltou ao camarote e acendeu outro cigarro e outro depois. Talvez estivesse ficando velho pra este tipo de coisa. Talvez devesse frequentar outros lugares, ver outras pessoas. Talvez devesse desejar coisas diferentes.

Mas naquele momento, ele só conseguia olhar pra pista e ver a quantidade de casais; as pessoas juntas, de mãos dadas, e enquanto na mão dele, um cigarro e ocasionalmente uma cerveja. Talvez aquela não fosse a praia dele mesmo.

Terminou o cigarro, despediu-se de todos antes do final da festa e saiu. Não tinha ninguém esperando por ele. Ia pegar um táxi pra casa, que era mais confortável. A madrugada -que madrugada ? Era quase manhã- continuava fria, e ele fechou a jaqueta. Caminhava devagar em direção ao ponto de táxi perto da esquina.

E foi quanto tudo ficou preto por um instante

Ele ouviu um cantar de pneus, mas não sabia ao certo de onde tinha vindo.

Abriu os olhos pra ver rostos desconhecidos sobre ele. Quem eram aquelas pessoas? O quê estavam fazendo ali?

Foi quando se deu conta de que podia ver o sol. a moça inclinada sobre ele movia os lábios, mas ele não conseguia entender o que ela dizia. Tudo era tão estranho.

A moça continuava inclinada sobre ele. Ela estava chorando? Será que ela tinha olhado na direção do sol? Sem saber por qual motivo, algo dentro dele mudou, e ele podia sentir sua mão se movendo em direção ao rosto dela.

A mão dela encontrou a dele no caminho. Era quente, macia. Ele desejou poder segurar a mão dela por mais tempo.

E fechou os olhos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Diferente

Desde criança sei que não sou como os demais. Algo dentro de mim nunca pareceu certo, e foi bem antes do divórcio dos meus pais. Não adianta jogar a culpa nisso agora, como eu vejo muita gente fazendo: "ahn, é culpa dos meus pais que não me amavam, é culpa do meu pai ter saído de casa, é culpa da minha mãe ter fugido com outro homem". Não é meu caso; sempre fui diferente de todos os outros, mesmo antes de saber o que significava.

Na escola eu tinha notas médias, era mais um rosto na multidão de meninas e meninos. Escola pública, não podia esperar muita qualidade ou exclusividade; andava com ambos grupos e ninguém parecia se importar; podia ser apenas a representação de mim enquanto estava com eles.

Mas nada permanece igual por muito tempo, as coisas sempre mudam, sempre se alteram, e quase sempre de forma desagradável para aqueles que são minoria. A minha diferença começava a gritar pros outros, começava a impedir que as outras pessoas chegassem a mim e vice-versa. Enquanto que pra mim, continuava a mesma pessoa, nos mesmos mínimos detalhes, fazendo as mesmas coisas.

A adolescência chegou, o corpo começou a mudar, e não sei como, mas o meu mudava ainda mais devagar. Parecia que eu não ia mudar. Eu não queria mudar. As meninas já desfilavam com seus sutiãs, os meninos exibiam orgulhosos sua penugem debaixo do braço e eu mostrava um sorriso amarelo de descontentamento.

Casais começaram a surgir. Bilhetinhos trocados, passados de mão em mão durante as aulas. Mãos dadas no intervalo. Aquele roçar de lábios com a boca fechada que chamavam de beijo. Mas não comigo, nunca pra mim. Ou assim eu achava.

O nome dela era Laura, e no momento em que eu a vi, tudo ficou diferente. Algumas semanas se passaram até eu vê-la de novo. Conversamos; ela riu, me olhou esquisito e se despediu. Não mais a vi. Ainda sonho com ela de vez em quando, do sorriso sem-graça, do olhar desejando que eu saísse de perto; meu peito dispara quando acordo. Dá uma sensação triste de vazio; o peso de ser diferente faz com que minhas costas se curvem aos poucos, ou assim parece.

Meses se passam, muitos meses na verdade; os anos vão se passando devagar, e eu vejo as pessoas mudando, a cidade mudando, o peso da diferença nas minhas costas cada vez maior. Lido com os olhares, os insultos, as pessoas que não entendem ou não querem entender como sou.

Um dia, voltando à noite, um pastor me abordou, me jogou no chão e orou pela minha alma, enquanto mulheres vestindo sacos, ou túnicas gritavam ao seu redor. Enquanto eu me recompunha e corria, me chamavam de demônio, mandavam eu voltar pro inferno. Não é o tipo de coisa que vemos.

Eu sei que tem algo diferente com a minha cabeça, e sou feliz com isso, não entendo a necessidade dos outros de me dizerem que é feio, que é errado, que é imoral. Não entendo a necessidade dos outros de se provarem tão melhores que eu em coisas com as quais não me importo.

Pessoas diferentes são protagonistas das mesmas tragédias, incapazes de mudar, sofrem sozinhas; buscam apoio em psicólogos, psiquiatras; buscam refúgio na bebida, nas drogas, no sexo... eu nem sei como são essas coisas. Masturbação mesmo eu só fui saber exatamente como era quando já tinha meus 16 anos. E olha que não achei lá essas coisas.

E eu vejo que as tragédias aumentam cada vez mais, e cada vez mais as pessoas me urgem a deixar esse meu lado diferente, a abraçar o que é comum, o que é certo, o que todos fazem. Cortar laços com as coisas erradas.

Então, com a pequena faca de limpar carne da cozinha, eu me livro do que é diferente, procuro fazer rápido pra não sentir dor.

O baque surdo não acorda ninguém, e o último barulho de que me dou conta é de um pequeno esguichar de  sangue que sai do meu pescoço.

Se não pensar, não preciso ser diferente; se não tivesse a cabeça que tenho, seria mais fácil.

Quem sabe agora pode ser fácil...


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Banco

Sentada, ela estava a esperar.

Os olhos fixos no horizonte, naquela tarde de sol escaldante. Pequenos insetos faziam uma festa pelo ar, mosquitos oportunistas banqueteavam-se nas pernas daqueles que esperavam o ônibus.

Ela ouvia com atenção as conversas dos outros, piscando apenas pra lubrificar os olhos. Ouvia histórias felizes e tristes; de reunião e de separação. Via pessoas subindo no ônibus com destino certo, via pessoas indecisas quanto ao próprio caminho. Via pessoas perguntando sobre o itinerário para o motorista.

Quando ela ficava cansada por estar no mesmo lugar, levantava e esticava as pernas, com delicadeza. O vestido florido que ela usava balançava de leve ao vento morno. O cabelo castanho claro, preso num coque; os lábios com um batom simples, sem cor.

Não podiam dizer que era bonita, mas também não era feia. Quantos anos devia ter? Trinta? Quarenta? Não dava pra saber ao certo; mas também, não tinha ninguém pra perguntar a ela. As pessoas apenas chegavam ao ponto, esperavam um pouco e seguiam seu caminho. Alguns nos ônibus grandes; outros nuns ônibus pequeninos e barulhentos. Alguns outros ficavam por muitos minutos, impacientes, batendo os pés no chão, proferindo insultos quando o ônibus finalmente apontava no horizonte.

Os ponteiros do relógio se moviam devagar e pequenas ondas de calor desprendiam-se do asfalto. Algumas senhoras recém-chegadas secavam o suor com lenços brancos, com monogramas. Coisas que não se via há muito tempo. Trajadas de preto; certamente iam a algum enterro; não que fosse importante.

Crianças andando de bicicleta, sem respeitar a distância entre os carros. Alguns adolescentes de skate. A mulher no vestido florido voltou a se sentar no mesmo lugar. Uma linha de formigas passava por debaixo do banco, cada qual com seu pedacinho de folha nas costas.

Um homem de terno sentou-se do lado dela; ofereceu um folheto, que ela educadamente aceitou e colocou na bolsa. Havia uma bolsa; pequena, ao lado dela. O homem se levantou, começou a falar e falar e falar, cada vez mais vermelho e suado. Fala com ênfase, com autoridade, por vezes cuspia pequenas gotículas de saliva. Ela parecia constrangida diante dele, que falava sem parar; tentou colocar a mão sobre a cabeça dela, ela se desvencilhou. Outras pessoas se aproximaram dele. Era óbvio que ela estava sendo perturbada. Colocaram o homem num ônibus e ele foi embora, enquanto duas mulheres falavam com a do vestido florido.

Ela parecia bem. Voltou à sua atividade habitual de olhar no horizonte, em direção ao final da rua, de onde vêm os ônibus. As pessoas tomaram seus rumos. Umas foram pra casa, outras pro trabalho. Logo ela estava sozinha novamente..

E quando o sol começa a descer por entre os prédios atrás da minha casa, eu vejo ela se levantar e andar de forma tímida, sempre no sentido da rua.

Ela anda devagar, mas num ritmo constante. Lá no final da rua, antes da curva, tem uma casa com um jardim tomado pelo mato. Ela abre o portão, que não tem chave e segue um caminho de pedras pequenas, no meio do matagal. Lá dentro tem uma casa antiga, com uma varanda clássica, e um banco de madeira, que já passou por dias melhores. Ela se senta e continua olhando.

É então que daqueles olhos inexpressivos parece cair uma lágrima, mas percebo que não são lágrimas dela. São minhas. Ela continua sentada, inexpressiva, olhando pra algo que eu não consigo determinar o que é.

Assim ela faz todos os dias. Ou pelo menos, tem feito isso todos os dias, inclusive finais de semana, já tem uns cinco anos que percebi. Sempre achei estranho aquela moça no ponto de ônibus em frente  à minha casa, ficar a tarde inteira sem pegar ônibus nenhum, nunca.

Acho que essa moça é triste. Acho não; tenho certeza. Ela parece estar esperando sempre por algo, algo que talvez nunca vá chegar. Talvez ela tenha perdido alguém, e esteja desiludida por isso.

Ou será que está deprimida? Vi na televisão que depressão é um caso sério, e hoje em dia muita gente sofre de depressão sem saber.

Qualquer que seja o problema dela, me corta o coração cada vez que a vejo sentada naquele banco, parada, inerte, congelada no tempo. Sempre com seus vestidos floridos e cabelos em coque. As bolsas, umas maiores outras menores do lado, sempre olhando no final da rua, esperando algo que não vem, aguardando um destino ignorado.

Por vezes, tenho pesadelos em que sou essa pobre mulher, e acordo gritando. Não com pena dela. Com pena de mim mesma. E medo. Muito medo de acabar assim, esperando por algo que nunca virá; vivendo uma vida vazia enquanto espero um fim.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Rótulo - gay

Tudo bem em ser gay...

Mas tem que ser discreto, brother macho, marrento, pegador de mina; não pode ter pato na garganta nem desafinar quando fala. Não pode rebolar quando anda, nem mexer a mão.
Tem que ser lek firmeza, mesmo quando já passou dos 18 anos; tem que ser parrudo e malhado, nada de magrelo e nada de gordo. Tem que ter o bíceps pra mostrar, foto sem camisa no orkut, de preferência, só com uma cueca slip mostrando parte dos pentelhos.
Tem que curtir uma breja de vez em quando, mas não pode ter pancinha, tudo bem se não tiver gominhos, mas pancinha, dobra na barriga não pode.
Ajuda se curtir um beck, mas cigarro comum tb resolve né?
Tem que ser na encolha, no seu carro, ou na sua casa, porque ninguém pode saber.
Pode ter tatuagem, mas nada de nome de mãe e símbolo japonês. O negócio é escorpião, dragão, carpa no braço, esses aí é que são pika!
Pêlo no peito e na barriga até vai, mas favor depilar as costas e a bunda; aparar os pentelhos tb é bom.
Tudo bem ouvir umas músicas de viado em casa, mas nada de curtir Lady Gaga, Britney e Madonna, isso é coisa de viado, e eu só curto cara macho; tem que ser um pagode, um funk proibidão, uma eletrônica mandada, cara que é macho saca logo qual é.
O negócio é: tem que ser dotado. 18 cm pra cima, ou não quero nem papo. Não ligo se é passivo, versátil ou ativo; se não sobrar bastante na minha mão, não quero.
Não fica de conversinha, não pede webcam, já chama logo pra real.
Não tem essa de passar a mão, não tem esse negócio de beijo na boca, é joelho no chão, boca pra trabalhar, joelhos e cotovelos sobre a cama e a cara afundada no travesseiro.

O papo é o seguinte: Faço muitas exigências porque sou vazio e incapaz de satisfazer a quaisquer exigências dos outros.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mensagem pra mim

Oi, tudo bom? Obrigado pelo e-mail.

Sabe, não devia dizer, mas eu sinto medo; de muitas coisas.

Acho que, com a vida que eu levei, e a forma como cresci, sentir medo era a reação mais normal e mais provável. Tenho medo de investir no novo, medo de confiar, me entregar e ser deixado, esquecido, ignorado.

É, eu até reconheço que não tivemos muito de uma relação né? Mas pelo menos a gente tentou e sobraram boas recordações. Eu acho que foram boas. Tá bom, algumas boas e algumas ruins, mais pro lado bom. Satisfeito? Imagino que vc deve estar rindo.

Eu tb sempre soube que você gostava de mim, de verdade, mas eu não tive essa capacidade de me comprometer, de me envolver completamente e me deixar levar pelas emoções. Não é que eu seja covarde, é que isso já se provou destrutivo na minha vida.

E olha onde estamos agora. Você pode negar, mas ainda guarda sentimentos por mim, e eu não estou nem aí pra isso. Claro, penso em vc como penso em qualquer outra pessoa. O fato é que eu tenho tentado, ativamente, sabotar meus próprios relacionamentos, me envolvendo com quem não liga pra mim.

É quase um vício, eu tento afastar quem parece que gosta de mim, pra tentar me aproximar de outros, e esses outros me afastam, traem minha confiança, me usam, me enganam. É foda.

Sou imperfeito, e imperfeito pra caralho às vezes. Sei o que quero, acredito eu, mas na maior parte do tempo não tenho os mecanismos pra alcançar. Sinto falta de alguém do meu lado; alguém que acredite em mim, que me dê força, que me dê mais que sexo, que me ofereça companhia, que me faça perceber - e acreditar - que consigo, e não, não pode ser você.

Não pode ser você porque sempre lembrarei de tudo o que aconteceu entre nós, cada briga, cada discussão, cada lágrima que vc deve ter derramado, ou que eu derramei, cada momento de solidão que passamos, mesmo quando estávamos juntos.

Se a gente tivesse continuado, como você queria, pode ser que, eventualmente, por um motivo ou  outro a gente viesse a brigar por coisas que somos muito diferentes, e íamos terminar nos magoando. Ainda guardamos mágoa um do outro? Não sei, pode ser que sim, mas pelo menos nos falamos ocasionalmente. Você com seu sarcasmo, eu com minha ironia e desprezo pelo alheio.

Acho que não sei como encerrar, só dizendo "obrigado por se preocupar comigo", mas sei que vc não gosta de agradecimentos. Tb não vou dizer "pode contar comigo", porque sei que vc não funciona assim. Então... o melhor pra nós dois. Você com seu mundo e eu com o meu. Tomara que, de alguma forma, a gente se dê bem na vida. Que eu encontre um cara que gosta de mim como sou, e que me valorize, e que vc encontre um cara pra cuidar, e que seja capaz de cuidar de você.

Um beijo

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mensagem pra você

Oi, tudo bom?

É, é um péssimo modo de começar um e-mail. Ainda mais sabendo que você pode nem ler, jogar fora direto, marcar como spam.
Aliás, nem sei se você ainda usa este e-mail, mas eu precisava escrever, e era coisa demais pra uma sms.

Outro dia eu estava fazendo backup das minhas coisas no PC, encontrei fotos suas, fotos de nós dois, fotos minhas que você tirou, e fiquei na dúvida sobre apagar ou não. Não temos mais nada; não terminamos bem, até voltamos a nos falar depois de um tempo, mas eu não sei exatamente onde estamos.
Sabe, vira e mexe eu me pego pensando em você, nas coisas que aconteceram e nas que podiam ter acontecido caso ainda estivéssemos juntos.

Acho que o mais difícil pra mim foi lidar com o "eu não sou capaz de te amar do jeito que vc me ama". Sempre fomos muito diferentes, a forma como vejo a vida é bem diferente da sua, tive experiências que você não teve, e vice-versa; relacionamentos não são construídos em cima de equivalências, mas em cima de reciprocidade. Não há como medir quantidade de amor, ou quantidade de atenção.

Uma das coisas de que eu me arrependo é que num ímpeto de raiva eu deletei parte das suas mensagens. Às vezes, por mais simples que fossem, me traziam um sorriso sincero, por pensar em cada coisa boa que vivemos; mas agora é passado, não é nada que eu possa fazer e mudar isso. Ainda guardo as lembranças, a melhor coisa de nós que pode haver agora.

Não vou mentir; sei que você ainda mexe comigo, e acredito que vc saiba disso também. Queria ser capaz de mexer com vc como antes, mas isso não está no meu controle. Imagino que outras pessoas já tenham passado pela sua vida, assim como algumas passaram pela minha; algumas deixaram marcas agradáveis, outras a gente acha melhor esquecer... é um mal da vida né? Não tem como fugir.

Mas sabe, eu me importo com você, de verdade. Mesmo que nunca mais tenhamos nada, que não passemos de conhecidos que se cumprimentam em datas festivas, eu quero ser capaz de te oferecer apoio quando vc precisar; quero que vc se sinta confortável novamente comigo. (Claro que seria bom sair com vc ocasionalmente e dar uns amassos, mas aguento de boa viver sem)

Nem vou ficar escrevendo muito mais, sei que vc tem seus problemas, e não precisa ouvir os meus. Só queria dizer novamente que, tô aqui pra vc, sempre estive e sempre estarei. Se um dia vc disser que quer que eu me afaste, eu vou me afastar; mas vc me conhece, sabe que gosto de cuidar de vc, e de outros tb, mas vc é especial. Vc fez parte da minha vida, e uma parte extremamente significativa, da qual o tempo não vai apagar. Não há como negar ou esconder: tentei te amar como pude, como sabia, como achei que daria certo. Não deu certo pra nós, estamos separados, mas não deixei de te amar; não deixei de desejar o seu bem, não deixei de pensar em vc e como quero que você seja feliz; lamento se isso te incomoda, mas precisava dizer.

E se chegou até aqui, fico feliz por não ter jogado fora. Às vezes, precisamos apenas de uma coisa boba e melosa como esta pra juntarmos forças e seguirmos adiante.

Não precisa me responder se quiser, não precisa dizer mais nada caso não se sinta confortável, só achei que vc devia saber. Sabe como é falar por horas é o meu negócio; dizem que eu sou bom com as palavras, e se vc puder aproveitar algo do que eu disse aqui...

Fica bem, nunca se esquece que antes de ser seu namorado, eu tentei ser seu amigo, e ainda quero.